Para entender o que muda a partir de 1840, é preciso ter clara a estrutura que vinha antes. O Brasil pós-independência herdou uma economia primário-exportadora com três bloqueios à industrialização. Primeiro, o regime de trabalho escravo mantinha o mercado interno deprimido: escravo não é consumidor de massa, sua subsistência é fornecida pelo senhor em espécie e a remuneração monetária inexiste. Segundo, o regime tarifário extraordinariamente aberto fixado pelos tratados desiguais com a Inglaterra (1810 e 1827) e pela Tarifa de 1828 impunha alíquota uniforme de apenas 15% ad valorem para todos os importados, sem distinção entre bens de consumo finais e equipamentos. Terceiro, havia escassez de capitais aplicáveis a empreendimentos manufatureiros: o capital nacional estava concentrado no setor exportador (engenhos e cafezais) ou imobilizado em escravos.
A tarifa de 15% era suficientemente baixa para que qualquer manufatura inglesa — beneficiando-se da Revolução Industrial e das economias de escala — chegasse ao Brasil mais barata que a similar nacional. Sem mercado interno, sem proteção e sem capital, a indústria não tinha condições objetivas de florescer. É contra esse pano de fundo que se deve ler a virada de 1840 em diante.
Em 1844 venceu o tratado comercial com a Inglaterra (de 1827), o que devolveu ao governo brasileiro plena soberania para fixar tarifas. A Tarifa Alves Branco elevou a alíquota média de importação para mais de 30% ad valorem, com picos em 60% para alguns produtos. O motivo declarado era fiscal — o Tesouro Imperial precisava ampliar suas receitas, sobretudo porque o fim iminente do tráfico de escravos (que viria em 1850) reduziria a base tributária. Mas o efeito não declarado foi protecionista: criou-se pela primeira vez no Brasil uma cunha de preços relativos favorável à manufatura interna.
Em paralelo, o Estado passou a conceder isenção tarifária para importação de máquinas, equipamentos e matérias-primas industriais — embrião do que, um século depois, seriam o sistema de licenciamento de Dutra e a Instrução 113 de Café Filho. A combinação "tarifa alta sobre o produto final + tarifa zero sobre o equipamento" gera matematicamente uma proteção efetiva (não apenas nominal) muito superior à proteção nominal e foi o primeiro instrumento microfundamentado de política industrial brasileira. Em 1852, 64 fábricas e oficinas já haviam se beneficiado desses privilégios — sobretudo têxteis, vestuário, sabão, cerveja, fundição, vidros e couro.
O fim efetivo do tráfico de escravos em 1850 produziu efeito macroeconômico decisivo. Os capitais que financiavam o tráfico — somas da ordem de milhões de libras esterlinas anuais nos anos finais — foram repentinamente liberados e tiveram que migrar para outras aplicações. Parte foi para o financiamento do café (crédito hipotecário aos fazendeiros), parte para a infraestrutura (ferrovias e bancos), e parte para os primeiros empreendimentos industriais e bancários no Rio de Janeiro. É o período da chamada "Era Mauá" — o Banco do Brasil, a Ferrovia Mauá (Rio–Petrópolis, primeira do país), estaleiros, companhia de iluminação a gás, fundição. Pela primeira vez o Brasil teve um surto de investimento privado em projetos não exclusivamente agrícolas.
O choque foi temporário do ponto de vista da proteção: em 1857 a oligarquia cafeeira pressionou pela redução das tarifas; em 1860, embora as alíquotas voltassem a subir (agora por motivo puramente fiscal, com média em torno de 50%), os privilégios industriais discricionários foram parcialmente revogados. Mas o salto qualitativo havia sido dado — havia capital brasileiro disponível para a indústria.
O segundo grande vetor estrutural foi a expansão cafeeira em São Paulo a partir das décadas de 1870 e 1880, sob duas características que diferenciavam radicalmente o ciclo paulista dos anteriores: (i) o trabalho era progressivamente livre e assalariado, e (ii) a fronteira agrícola se expandia para o oeste paulista em moldes capitalistas, com lavouras de larga escala mecanizadas no transporte e no beneficiamento. O assalariamento — primeiro do colono italiano, depois do imigrante em geral — gerou pela primeira vez no Brasil um mercado interno de massas para bens de consumo baratos: tecidos populares, calçados, fósforos, sabão, vela, cerveja, vinagre. É esse mercado, mais do que qualquer política deliberada, que sustenta a expansão da indústria têxtil brasileira no último quarto do século XIX.
Os números confirmam o salto: 1853 — 8 fábricas têxteis com 424 operários; 1885 — 48 fábricas com 3.172 operários; 1905 — 110 fábricas com 39.159 operários; 1915 — 240 estabelecimentos. Em 1914 a produção têxtil nacional já cobria 85% do consumo interno brasileiro (Baer, Tabela 3.1).
| Ano | Fábricas | Operários |
|---|---|---|
| 1853 | 8 | 424 |
| 1885 | 48 | 3.172 |
| 1905 | 110 | 39.159 |
| 1915 | 240 | — |
A imigração desempenhou triplo papel. Primeiro, supriu a força de trabalho assalariada que sustentou a expansão cafeeira pós-abolição. Segundo, formou o consumidor urbano: o imigrante europeu trazia padrão de consumo manufaturado superior ao da população escrava ou liberta tradicional. Terceiro, e talvez o mais importante para a indústria, forneceu o empreendedor industrial — Francisco Matarazzo (italiano), Crespi, Klabin (lituano), Jafet (libanês), Roberto Simonsen, Lundgren — todos imigrantes ou filhos de imigrantes que fundaram as maiores empresas industriais brasileiras do início do século XX. O imigrante trazia experiência empresarial, conhecimento técnico e disposição para reinvestir lucros em negócios manufatureiros, atributos escassos na elite agrário-mercantil tradicional.
Baer (p. 47) traz dado contundente: de 13 indústrias têxteis fundadas no século XIX e ainda em funcionamento em 1917, onze eram controladas por antigos importadores. O mecanismo é claro: o importador detinha capital líquido, conhecimento do mercado interno, rede de distribuição já capilarizada e relacionamento bancário consolidado. Quando a tarifa subiu e a desvalorização cambial encareceu seu produto importado, o importador racionalmente passou a produzir internamente. O ponto teórico relevante é que a substituição de importações começa muito antes de 1930 — ela é um processo de longuíssimo prazo, que se acelera em ondas (1844, 1890, 1914, 1930), mas que tem sua origem ainda no século XIX.
A expansão ferroviária — de 14 km em 1854 para 16.306 km em 1904 — integrou o mercado nacional, baixou os custos de transporte interno, permitiu o escoamento do café para Santos (que, em 1894, tornou-se o maior porto cafeeiro do mundo) e gerou demanda derivada por bens de capital, matérias-primas siderúrgicas, oficinas mecânicas e mão-de-obra especializada. As primeiras grandes oficinas industriais brasileiras — em São Paulo, Rio, Belo Horizonte — surgem dentro do sistema ferroviário, como subprodutos da manutenção das locomotivas. É nessas oficinas que se forma a primeira geração de trabalhadores industriais qualificados do país: mecânicos, torneiros, ferreiros, soldadores.
Ao longo de toda a Primeira República, o mil-réis sofreu desvalorizações sucessivas frente à libra esterlina (a moeda de referência mundial até 1914). Como o Brasil não tinha indústria de bens de capital, e como os manufaturados eram majoritariamente importados, cada desvalorização do mil-réis encarecia o similar importado em termos de preços relativos internos, ampliando a proteção efetiva à indústria nascente. Trata-se de protecionismo via câmbio que se somava ao protecionismo tarifário — mecanismo que voltará reforçado nos anos 1930 e que constitui um dos eixos clássicos da formação industrial brasileira.
Em síntese, o surgimento da indústria brasileira a partir de 1840 não foi produto de uma política industrial deliberada, mas resultado de uma confluência de mudanças estruturais que amadureceram em paralelo: fim do tráfico de escravos (liberação de capitais), Tarifa Alves Branco (proteção e isenção de equipamentos), expansão cafeeira em moldes capitalistas (mercado interno e empreendedores), imigração (trabalho livre e consumidor), infraestrutura ferroviária (integração e demanda derivada), Encilhamento (crédito), desvalorização cambial (proteção implícita) e migração do capital importador para a produção. O resultado é um parque industrial significativo já em 1914, capaz de cobrir 85% do consumo doméstico de têxteis e de servir de base para os surtos posteriores de 1914-18 e de 1930 em diante.
| # | Vetor | Mecanismo | Marco |
|---|---|---|---|
| 1 | Bloqueio anterior a 1840 | Tarifa de 15% + escravidão + falta de capital | Tarifa de 1828 |
| 2 | Tarifa Alves Branco | Alíquota >30%; isenção para máquinas | 1844 |
| 3 | Lei Eusébio de Queirós | Capital do tráfico → indústria/ferrovias | 1850 |
| 4 | Expansão cafeeira em SP | Trabalho livre → mercado interno de massa | 1870-1880 |
| 5 | Imigração europeia | Trabalhador + consumidor + empreendedor | 1880-1914 |
| 6 | Capital importador → indústria | 11 de 13 têxteis em 1917 vinham daí | Final séc. XIX |
| 7 | Ferrovias (14 → 16.306 km) | Demanda por trilhos, máquinas, oficinas | 1854-1904 |
| 8 | Encilhamento | Crédito + sociedades anônimas industriais | 1890 |
| 9 | Desvalorização cambial | Encarece importado = proteção implícita | Toda 1ª República |
A Tabela 1 mostra elevação dramática do índice (1939 = 100) no período: 41,3 (1904); 62,3 (1905); 66,1 (1906); 93,0 (1907); 96,4 (1908); 102,9 (1909); 118,7 (1910); 153,6 (1911); 205,3 (1912); 152,5 (1913). Em pouco menos de uma década, o volume importado de máquinas, equipamentos e bens duráveis de produção quase quintuplicou. Em paralelo, o consumo aparente de cimento saltou de 94 mil para 465 mil toneladas (5×), e o de aço subiu de 127 mil para 589 mil toneladas (4,6×). É um ciclo claro de aprofundamento de capital, não de simples extensão do parque existente.
| Ano | Índice | Ano | Índice |
|---|---|---|---|
| 1904 | 41,3 | 1909 | 102,9 |
| 1905 | 62,3 | 1910 | 118,7 |
| 1906 | 66,1 | 1911 | 153,6 |
| 1907 | 93,0 | 1912 | 205,3 |
| 1908 | 96,4 | 1913 | 152,5 |
Numa economia primário-exportadora, a importação de bens de capital é restrita pela capacidade de importar, definida pela receita cambial gerada pelas exportações primárias mais a entrada líquida de capitais. Em fórmula simplificada: MKmax ≤ (Xcafé + Xoutros) + ΔK.
Quando X cresce — porque o preço do café está alto, a quantidade exportada é alta, e o café representa cerca de 70% da pauta —, a capacidade de comprar máquinas no exterior cresce mecanicamente. Foi exatamente o que aconteceu entre 1904 e 1913: o boom cafeeiro internacional, combinado com a entrada de capital estrangeiro em ferrovias, portos, bancos e empresas de utilidade pública, elevou o teto da capacidade de importar e liberou divisas para a aquisição de equipamento industrial.
O Convênio de Taubaté, assinado pelos governadores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro em fevereiro de 1906, institucionalizou a política de valorização do café: o governo passou a comprar o excesso de produção para sustentar artificialmente o preço internacional. O mecanismo era essencialmente cartelizador. Como o Brasil, na época, respondia por 70-80% da produção mundial de café, podia influenciar diretamente o preço mundial ao retirar oferta do mercado.
Os efeitos foram dois e ambos relevantes para o índice de bens de capital: (i) a renda do setor cafeeiro foi estabilizada, sustentando a demanda interna e a capacidade de importar de forma consistente ao longo do período; (ii) o preço do café manteve-se elevado, gerando enormes excedentes cambiais que financiavam compras de máquinas. O Convênio terá consequências catastróficas em 1929 (ao induzir superinvestimento cafeeiro), mas nos anos 1904-1913 ele sustentou a saúde do BP e, por essa via, viabilizou o ciclo de aprofundamento de capital industrial.
Entre 1905 e 1913 o mil-réis valorizou-se em relação à libra esterlina, fenômeno raríssimo na história monetária brasileira pré-Plano Real. A causa foi o superávit estrutural do balanço de pagamentos: superávit comercial gerado pelo café + entrada líquida de capitais externos. A consequência é direta na lógica de preços relativos: a valorização cambial reduz o preço dos importados em moeda nacional. Para o capitalista industrial brasileiro, isso significava que o pacote de uma teia inglesa ou de um motor a vapor alemão ficou objetivamente mais barato em mil-réis. Baer (p. 49) é explícito: a valorização "ocasionou grandes aumentos na importação de maquinário".
É importante notar o paradoxo: do ponto de vista do produto industrial final, a valorização cambial era desfavorável (barateava o similar importado também); mas do ponto de vista do equipamento usado para produzir, ela era favorável (barateava a importação de máquinas). Esse paradoxo só se resolve quando se observa que, no nível geral, a expansão da demanda interna gerada pelo boom cafeeiro mais do que compensava a perda de proteção sobre o produto final.
O Encilhamento de 1890 havia semeado a criação de centenas de novas firmas industriais. A maioria quebrou nos anos 1890, mas as sobreviventes amadureceram ao longo da primeira década do século XX e chegaram ao período 1905-1913 demandando ampliação de capacidade — isto é, novas levas de equipamento. A Tabela 3.5 de Baer corrobora essa interpretação: as firmas fundadas entre 1905 e 1914 exibiam o maior coeficiente de capital por trabalhador (HP/operário) de toda a série pré-1930. Não eram replicações artesanais; eram empresas tecnologicamente densas para os padrões brasileiros da época, e densas em capital significa intensivas em equipamento importado.
Em paralelo, a expansão ferroviária e elétrica gerou demanda derivada por trilhos, locomotivas, vagões, turbinas, geradores, transformadores — todos itens classificados como bens de capital e, na ausência de produção interna, integralmente importados. A própria modernização de Manaus durante o ciclo da borracha (bondes elétricos, porto flutuante, teatro) gerou pressão localizada por importação de equipamentos. A integração dessas demandas no índice nacional explica parte significativa do salto entre 1904 e 1913.
Pode-se sintetizar o mecanismo de transmissão em cadeia causal: ↑ Pcafé (Convênio de Taubaté sustenta) → ↑ Xcafé → ↑ BP positivo → entrada de capitais → ↑ mil-réis (valorização) → ↓ preço relativo dos bens importados → ↑ MK importado + ↑ demanda derivada da infraestrutura + maturação das firmas do Encilhamento → expansão e aprofundamento da capacidade industrial, que se exprimirá em produção plena nos anos 1914-1918 e em diversificação nos anos 1920.
O índice cai em 1913 — de 205,3 em 1912 para 152,5 — e despencará a partir de 1914 com a Guerra. Mas é justamente a base de capacidade construída nesse ciclo 1904-1913 que sustentará a resposta produtiva da indústria brasileira aos choques externos do meio do século XX.
Entre 1901 e 1913 o índice (1939 = 100) saiu de 56,8 e atingiu 205,3 em 1912 — um quase-quadruplicamento — e ainda 152,5 em 1913. A média dos cinco anos finais do período pré-guerra (1909-1913) supera 145. Já no quinquênio de guerra (1914-1918) o índice desabou: 63,4 em 1914 (já em transição), 25,2 em 1915, 32,2 em 1916, 32,0 em 1917 e 36,9 em 1918. A média do quinquênio é cerca de 38, ou seja, menos de 27% da média do quinquênio anterior.
A Tabela 3.6 de Baer (p. 53) sintetiza a magnitude: tomando 1911-1913 = 100, o volume importado de bens de capital em 1914-1918 caiu para apenas 22,2 — pior do que matérias-primas (47,8), bens de consumo (45,1) e combustíveis (65,0). Cimento e aço, que são bons proxies de formação de capital fixo, mostram o mesmo padrão: o consumo aparente de cimento caiu de 465 mil toneladas em 1913 para 51,7 mil em 1918 (queda de 89%); o de aço caiu de 589 mil para 50 mil toneladas (queda de 91,5%).
| Categoria | Índice 1914-18 | Queda |
|---|---|---|
| Bens de capital | 22,2 | −78% |
| Bens de consumo | 45,1 | −55% |
| Matérias-primas | 47,8 | −52% |
| Combustíveis | 65,0 | −35% |
| Total | 44,6 | −55% |
O mecanismo que produziu essa queda opera em quatro elos encadeados:
Elo 1 — Colapso da oferta mundial de bens de capital. A Inglaterra, a Alemanha, a França, a Bélgica e os Estados Unidos eram os fornecedores tradicionais de máquinas e equipamentos para o Brasil. Com a guerra, todos eles converteram parte significativa de sua capacidade industrial para a produção bélica: a fábrica de locomotivas passa a produzir blindados, a de motores civis passa a fazer aviões militares, a de máquinas têxteis passa a produzir armamento leve. A oferta exportável de bens de capital simplesmente murchou.
Elo 2 — Desorganização da navegação atlântica. O bloqueio naval entre Aliados e Potências Centrais e, especialmente, a guerra submarina alemã (intensificada a partir de 1915 e irrestrita a partir de fevereiro de 1917) tornaram o transporte transatlântico arriscadíssimo. Os fretes marítimos quadruplicaram, os prêmios de seguro explodiram, e parte da frota mercante foi confiscada para fins militares. Mesmo quando o equipamento existia, faltava navio para trazê-lo.
Elo 3 — Inexistência de fornecedor alternativo interno. O Brasil não produzia bens de capital — não tinha siderurgia integrada, não tinha indústria de máquinas-ferramenta, não tinha fábrica de motores nem de caldeiras. Diante da escassez externa, simplesmente não havia substituto interno disponível.
Elo 4 — Impacto sobre a FBCF. Com importação de equipamentos colapsada e ausência de produção interna, a Formação Bruta de Capital Fixo praticamente parou. As usinas, fábricas e ferrovias passaram a operar com o equipamento que já tinham, depreciando-o sem reposição. É um quadro de consumo de estoque de capital sem reinvestimento — exatamente o oposto do que se observara entre 1904 e 1913.
A Tabela 3.6 mostra que, dentro do total importado, os bens de capital caíram proporcionalmente mais do que outras categorias. A explicação envolve prioridades de racionamento implícito: o pouco de divisas e o pouco de navegação disponível foram alocados prioritariamente para combustíveis (essenciais à energia e ao transporte), matérias-primas industriais (essenciais para manter a indústria existente funcionando) e bens de consumo essenciais. Bens de capital — cuja função é expandir capacidade futura, não atender necessidades correntes — foram a categoria mais postergada. É um padrão que se repetirá na 2ª Guerra Mundial: em condições de escassez extrema, sacrifica-se primeiro o investimento em capacidade nova, mantém-se o consumo de subsistência.
Há uma tese tradicional na historiografia brasileira — sustentada inicialmente por Roberto Simonsen e por Caio Prado Júnior, e ainda hoje presente em manuais escolares — segundo a qual a 1ª Guerra Mundial teria sido o grande momento do "salto industrial" brasileiro, ao desorganizar a importação e abrir espaço para a produção doméstica. Werner Baer (p. 50) refuta essa tese e mostra que a guerra produziu, sim, expansão da produção, mas não expansão da capacidade instalada. O parque industrial brasileiro saiu da guerra praticamente do mesmo tamanho com que entrou; o que ocorreu foi a utilização mais plena da capacidade que já existia em 1913.
A produção industrial cresceu durante a guerra por uma combinação de quatro fatores. Primeiro, a importação de bens de consumo manufaturados despencou — caiu para 45% do nível pré-guerra (Tabela 3.6) —, abrindo espaço de demanda para o similar nacional. Segundo, a indústria brasileira chegara ao período com capacidade ociosa significativa, herdada do ciclo de investimentos 1904-1913 que produzira mais capacidade do que a demanda interna pré-1914 absorvia. Terceiro, o câmbio depreciado (o mil-réis sofreu pressão durante a guerra por causa da queda das exportações cafeeiras, com café em estoque represado) encareceu os poucos bens importados disponíveis, aumentando a proteção efetiva da indústria nacional. Quarto, a escassez de oferta importada elevou os preços relativos dos manufaturados internamente, tornando lucrativo operar fábricas que antes operavam abaixo da capacidade.
A Tabela 3.2 de Baer registra o efeito: o índice de produção têxtil (1929 = 100) sobe de 76,5 em 1913 para 105,6 em 1919. Calçados, vestuário, alimentos processados e bebidas também crescem.
A produção industrial brasileira durante a guerra destinou-se majoritariamente ao mercado interno, que estava carente dos manufaturados europeus tradicionalmente importados. Pequena parcela foi para exportação — sobretudo têxteis para a Argentina, África do Sul e demais países latino-americanos privados de seus fornecedores tradicionais, além de açúcar e carne —, mas Baer (p. 51) é categórico: foram volumes "muito pequenos comparados com os da 2ª Guerra Mundial".
Trata-se de ponto importante para entender a natureza estrutural da indústria brasileira: ela nunca foi uma indústria voltada para fora, como a alemã ou a japonesa. Desde o seu nascimento, ela é uma indústria voltada para dentro, formada para substituir importações em um mercado interno crescente. Essa orientação para o mercado doméstico se cristaliza durante a 1ª Guerra e dominará toda a trajetória do modelo de substituição de importações até o fim dos anos 1970.
| Destino | Peso | Observação |
|---|---|---|
| Mercado interno | Majoritário | Substitui importações represadas pela guerra |
| Exportação | Marginal | Têxteis para Argentina, África do Sul, vizinhos latino-americanos |
Embora não tenha havido expansão significativa de plantas industriais, a Guerra teve um legado importante: a expansão das oficinas mecânicas e empresas de reparo. Com a impossibilidade de importar peças de reposição, foi preciso fabricá-las internamente. Essa fabricação local de peças, embora simples, gerou aprendizado tecnológico, formação de mão-de-obra mecânica especializada e acumulação de capital em pequenas empresas auxiliares. Essas oficinas, ampliadas e diversificadas nos anos 1920, serão a base do parque metal-mecânico brasileiro nas décadas seguintes. É um efeito de learning by doing que não aparece nos índices agregados de produção mas que tem importância estrutural para a etapa seguinte.
A década de 1920 foi caracterizada por saldos positivos no balanço de pagamentos brasileiro, sustentados por três vetores:
Vetor 1 — Boom cafeeiro internacional. O fim da guerra trouxe a recuperação do consumo de café nos Estados Unidos e na Europa, ao mesmo tempo em que a produção brasileira ampliava-se. A participação do café nas exportações brasileiras subiu de 56% em 1919 para mais de 75% em 1924; as exportações totais como proporção do PNB cresceram de 5,7% em 1919 para 12,5%.
Vetor 2 — Defesa do café (federalizada). O Conselho Nacional do Café, criado em 1922 e reorganizado em 1925, comprava os excedentes que poderiam pressionar o preço para baixo, mantendo cotação artificialmente alta. Essa renda mantida do setor cafeeiro sustentou a capacidade de importar.
Vetor 3 — Entrada de capital estrangeiro. Empréstimos públicos da União, estados e municípios brasileiros + IED em ramos novos (Ford 1919, GM 1925, Light) + financiamentos comerciais. A dívida externa brasileira passou de aproximadamente £1 bilhão em 1920 para £1,3 bilhão em 1930.
| Vetor | Mecanismo | Impacto |
|---|---|---|
| Boom cafeeiro | Café = 56% (1919) → 75% (1924) da pauta | Receita explode |
| Defesa do café | Estados compram excedentes | Renda estabilizada |
| Capital estrangeiro | Empréstimos + IED (Ford, GM, Light) | Dívida sobe de £1 bi → £1,3 bi |
O BP superavitário pressionou o mil-réis para cima ao longo dos anos 1920. O governo conseguiu estabilizar a paridade próxima de 6 pence/mil-réis a partir de 1923 (Conferência de Belo Horizonte, 1923) — mas o efeito de fundo foi a erosão da proteção implícita que a desvalorização cambial dos anos anteriores havia oferecido à indústria.
Esse é o paradoxo central dos anos 1920: a saúde do BP, do ponto de vista cambial macro, foi desfavorável à indústria porque eliminou parte da proteção natural. O crescimento industrial dos anos 1920 foi mais modesto que o do quinquênio anterior — 3% a.a. em 1920-29, contra 4,6% em 1911-20.
Por outro lado, o saldo positivo do BP permitiu importação maciça de máquinas e equipamentos. O índice de quantidade importada de bens de capital saltou para média superior a 140 na década (vs ~38 no quinquênio de guerra). Isto é, o saldo positivo do BP teve duplo efeito: reduziu a proteção (efeito negativo de curto prazo) mas viabilizou aprofundamento de capital (efeito positivo de médio prazo).
A Tabela 1 da prova mostra o índice de bens de capital nos anos 1920: 108,1 (1920); 125,8 (1921); 91,5 (1922); 119,4 (1923); 151,0 (1924); 209,2 (1925); 154,7 (1926); 124,3 (1927); 133,2 (1928); 184,7 (1929). A média da década supera 140, e o pico de 1925 (209,2) ultrapassa até o pico pré-guerra (205,3 em 1912). Em comparação, a média do quinquênio de guerra (1914-1918) foi de cerca de 38. A importação de bens de capital nos anos 1920 foi, portanto, 3,7 vezes maior que na guerra.
Mas o ponto mais interessante não é o agregado — é a mudança qualitativa da pauta. A Tabela 3.7 de Baer mostra que, dentro da importação de maquinário, o equipamento têxtil caiu de £4.123 (1920) para £540 (1929) — queda de 87%. Já o maquinário não-têxtil saltou de £760 para £4.095 — crescimento de +439%. É indicador inequívoco de diversificação industrial em curso: a indústria brasileira deixa de ser quase-monocultura têxtil e começa a abrir outros ramos.
| Ano | Índice | Ano | Índice |
|---|---|---|---|
| 1920 | 108,1 | 1925 | 209,2 (pico) |
| 1921 | 125,8 | 1926 | 154,7 |
| 1922 | 91,5 | 1927 | 124,3 |
| 1923 | 119,4 | 1928 | 133,2 |
| 1924 | 151,0 | 1929 | 184,7 |
A importação maciça e diversificada de máquinas nos anos 1920 fez com que a capacidade industrial crescesse mais que a produção. O Brasil chegou a 1929 com capacidade ociosa significativa em vários setores (têxtil, alimentos, química, metalurgia, cimento). Quando a crise externa de 1929 reprimiu as importações concorrentes, essa capacidade ociosa entrou rapidamente em operação — a produção industrial recuperou o nível pré-1928 já em 1931, sem que tivesse havido investimento novo significativo. É a base material que permite o crescimento industrial brutal dos anos 1930 (11,3% a.a. em 1933-39).
A diversificação industrial dos anos 1920 resulta da combinação de seis fatores:
1. Defesa do café sustentou renda interna e demanda por todos os manufaturados — substrato que tornou viáveis os novos setores.
2. Reinvestimento dos lucros da guerra. Famílias industriais que acumularam capital durante a 1ª Guerra (Matarazzo, Crespi, Klabin, Jafet) diversificaram seus negócios para química, papel, metalurgia, sabão.
3. Entrada de IED em ramos novos. Ford instala-se em SP em 1919, General Motors em 1925 (operações de montagem). Light expande seu sistema elétrico. Belgo-Mineira é fundada em 1921 com capital belga + brasileiro.
4. Auxílio governamental seletivo. Isenções tarifárias para importação de equipamentos + empréstimos subsidiados pelo Banco do Brasil para cimento, siderurgia, química.
5. Efeito acelerador defasado. Lucros da 1ª Guerra geraram encomendas de equipamento entregues anos depois — explica parte significativa do crescimento da importação de MK não-têxtil.
6. Crescimento das oficinas mecânicas. As oficinas de reparo da guerra evoluíram para pequenas/médias fábricas de peças, ferramentas, equipamentos simples — embrião do setor metal-mecânico.
| Setor | Marco |
|---|---|
| Cimento | 1ª fábrica brasileira (Cia. Brasileira de Cimento Portland Perus, 1924); produção 30k → 96k t (1926-29) |
| Aço | Belgo-Mineira fundada em 1921 (capital belga + brasileiro) |
| Automóveis | Ford (1919) e General Motors (1925) — operações de montagem |
| Eletrodomésticos | GE e Westinghouse instalam-se |
Para entender por que a oferta colapsou em 1929, é preciso voltar ao comportamento dos cafeicultores durante toda a década de 1920. A década foi marcada pela Política de Valorização do Café, na qual o governo comprava os excedentes da produção para sustentar artificialmente o preço internacional. O raciocínio do cafeicultor era direto: o preço do café funcionava como a principal variável que motivava sua decisão de investir. Quando o preço estava alto e protegido pelo governo, o cafeicultor era incentivado a ampliar a área plantada — expansão da fronteira cafeeira, sobretudo no Oeste Paulista e no Norte do Paraná — e a investir em novos pés de café.
Aqui aparece um elemento crucial da dinâmica temporal do café: o pé de café leva em torno de quatro anos entre o plantio e a primeira colheita comercial. A decisão de plantar tomada em 1925-1926 só se materializava em oferta efetiva em 1929-1930. Isso significa que, durante toda a década de 1920, formou-se uma gigantesca oferta reprimida, ainda no pé, esperando maturação. Os cafeicultores continuaram investindo porque o governo garantia o preço, mesmo quando os sinais do mercado internacional já davam mostras de saturação.
O resultado foi uma defasagem estrutural entre decisão de investir e efetivação da oferta, que gerou uma superprodução no pior momento possível: justamente quando a demanda global desabaria. É o caso de manual do problema teórico do "ciclo de aranha" (cobweb cycle) em mercados com defasagem produtiva longa.
A crise de 1929 atinge o Brasil em dois golpes simultâneos que se reforçam mutuamente:
Pelo lado da demanda: a quebra da Bolsa de Nova York e a Depressão mundial derrubaram a renda dos principais consumidores de café (EUA e Europa). A renda média dos EUA caiu cerca de 30% entre 1929 e 1933, e o desemprego americano saltou para 25%. A procura internacional por café reduziu-se drasticamente.
Pelo lado da oferta: a oferta explodiu no pior momento possível. Todos os pés plantados na década de 1920 entraram em produção justamente entre 1929 e 1933, somando-se aos estoques gigantescos acumulados pela política de valorização. Além disso, o governo, quebrado pela crise fiscal, não tinha mais condições de sustentar a compra de excedentes — em fevereiro de 1930 o Instituto do Café de São Paulo declarou-se incapaz de continuar comprando — e os estoques represados foram sendo despejados no mercado.
A lógica microeconômica é imediata: quando há excesso de oferta frente a uma demanda reduzida, o preço necessariamente despenca. No caso do café, o preço internacional caiu aproximadamente 60% entre 1929 e 1931.
Aqui entra a análise da elasticidade-preço da demanda do café no mercado internacional, ponto central para entender por que a receita de exportação caiu mesmo com preços baixos.
A Lei da Demanda afirma que, ceteris paribus, uma redução no preço de um bem aumenta a quantidade demandada. Logo, em tese, o tombo do preço do café deveria ser parcialmente compensado por aumento na quantidade vendida. Mas o café tem uma característica peculiar: sua demanda é fortemente inelástica a preço. Ou seja, |Epd| < 1. Isso significa que variações de preço produzem variações proporcionalmente menores na quantidade demandada. O café é um bem de hábito, consumido em quantidades relativamente estáveis — quem toma café de manhã não passa a tomar o dobro só porque o preço caiu pela metade.
O resultado para a receita de exportação (Xcafé = P × Q) é devastador: o preço caiu cerca de 60%; a quantidade demandada aumentou muito pouco. Como a queda percentual do preço foi muito maior do que o aumento percentual da quantidade, a receita total de exportação do café desabou. Este é o princípio econômico-chave: quando a demanda é inelástica, reduções de preço reduzem a receita total.
Como o café representava, no final dos anos 1920, cerca de 70% de todas as exportações brasileiras, o colapso da receita cafeeira se transmitiu diretamente para as exportações totais. O valor das exportações brasileiras caiu de US$ 445,9 milhões em 1929 para US$ 180,6 milhões em 1932 — queda de 59,5%.
Sobre o saldo da balança comercial (X − M), entretanto, o efeito não foi tão catastrófico quanto poderia parecer, por uma razão importante: as importações (M) também caíram, e caíram muito. Em valor passaram de US$ 416,6 milhões em 1929 para US$ 108,1 milhões em 1932 — queda de 74%. Três fatores explicam essa contração das importações: (i) com menos divisas entrando, o país simplesmente não tinha dólares para pagar importações; (ii) o governo impôs restrições cambiais e controles de importação; (iii) a desvalorização do mil-réis encareceu as importações em moeda nacional.
Então, mesmo com X caindo, M caiu proporcionalmente mais rápido, de modo que o saldo da balança comercial conseguiu se manter marginalmente positivo na maior parte do período. Esse foi, aliás, um dos mecanismos que Celso Furtado identificou como início do processo de substituição de importações: a escassez de divisas obrigou o país a produzir internamente o que antes importava.
Aqui o choque foi inequivocamente negativo. A década de 1920 havia sido marcada por forte entrada de capital estrangeiro no Brasil. A crise de 1929 reverte completamente esse fluxo.
Interrupção da entrada de investimentos: com o colapso financeiro mundial centrado em Nova York e Londres, secaram as fontes internacionais de crédito. Investidores estrangeiros não tinham mais recursos nem apetite de risco para aplicar em países periféricos como o Brasil. A entrada de capital estrangeiro, segundo Baer (p. 54), "cessou quase totalmente em 1932".
Fuga de capitais: o capital que já estava no Brasil começou a sair, repatriado pelos investidores estrangeiros que precisavam cobrir perdas em seus países de origem. Bancos estrangeiros recolheram depósitos, empresas estrangeiras remeteram lucros e amortizações antecipadamente.
Resultado: a conta de movimento de capitais ficou fortemente negativa. O Brasil passou a ser exportador líquido de capital, exatamente no momento em que mais precisava de divisas.
O saldo do BP é, grosso modo, a soma do saldo em conta corrente (onde está a balança comercial, mais serviços e rendas) com o saldo da conta de capital.
Montando o quadro brasileiro 1930-1931: balança comercial marginalmente positiva (graças ao colapso maior das importações); serviços e rendas fortemente negativa (juros da dívida externa, remessas de lucros, despesas com fretes); conta de capital fortemente negativa (fuga + interrupção de novos investimentos). O resultado é que o saldo do BP ficou negativo.
A regra contábil é direta: quando o saldo do BP é negativo, as reservas internacionais diminuem. O Brasil, que havia acumulado alguma reserva durante o final dos anos 1920, viu esse estoque derreter em poucos meses após o choque de 1929, para cobrir compromissos externos e déficits em conta corrente. Esse colapso das reservas é o que coloca o país em situação de quase-insolvência externa já em 1930-1931, e é o gatilho para todas as medidas heterodoxas tomadas a seguir.
Com reservas despencando e fuga de capitais, a demanda por dólares no mercado brasileiro explodiu enquanto a oferta de dólares minguava. O mil-réis sofreu forte desvalorização — perdeu aproximadamente metade do seu valor em dólar entre 1929 e 1931. O governo, incapaz de defender a paridade anterior, foi forçado a: abandonar a conversibilidade em ouro; deixar o câmbio desvalorizar; instituir controles cambiais — o Brasil foi o primeiro país da América Latina a fazê-lo.
Essa desvalorização, embora dolorosa, teve um efeito lateral importante: protegeu o setor industrial interno, pois encareceu os produtos importados e tornou competitiva a produção nacional. É a semente do processo de industrialização por substituição de importações que Furtado analisaria como "deslocamento do centro dinâmico".
O paradoxo aparente é que, em meio à pior crise externa da história do Brasil, a economia interna não entrou em depressão profunda — e a indústria, em particular, viveu um dos seus melhores períodos de crescimento. A explicação está em quatro mecanismos articulados que a resposta de política econômica brasileira ativou:
Mecanismo 1 — Sustentação da renda via defesa do café. Em 1931, o governo federalizou a defesa do café via Conselho Nacional do Café, que comprou e queimou mais de 78 milhões de sacas ao longo da década. Esse gasto foi parcialmente financiado por emissão monetária e impostos. A renda monetária dos cafeicultores foi mantida, mesmo em colapso real do setor.
Mecanismo 2 — Proteção implícita pelo câmbio + controles. O mil-réis desvalorizou cerca de 50% em 1929-31, e o governo instituiu controles cambiais (Brasil foi o primeiro país da AL a fazê-lo). Os importados ficaram caros ou indisponíveis.
Mecanismo 3 — Capacidade ociosa pré-1930. Como visto na questão 3, a importação maciça de máquinas nos anos 1920 deixara o parque industrial com capacidade ociosa significativa. Essa capacidade entrou rapidamente em operação.
Mecanismo 4 — Mudança nos preços relativos. Manufaturados ficaram mais caros que primários, atraindo investimento.
Os números falam por si: enquanto a agricultura cresceu apenas 1,7% a.a. em 1933-1939, a indústria cresceu 11,3% a.a.. É o salto mais expressivo da história econômica brasileira até aquele momento.
Definição. "Socialização das perdas" é o conceito de Celso Furtado (em Formação Econômica do Brasil) para descrever o mecanismo pelo qual o Estado brasileiro, em 1930-1933, assumiu coletivamente os prejuízos privados do setor cafeeiro. Em vez de deixar que os cafeicultores absorvessem isoladamente o colapso do preço internacional do café — o que teria provocado falências em massa, demissão de colonos, colapso da renda regional —, o governo comprou os estoques excedentes, queimou-os fisicamente (mais de 78 milhões de sacas entre 1931 e 1944) e reescalonou as dívidas hipotecárias dos fazendeiros via Programa de Reajustamento Econômico de 1933, que reduziu o valor das dívidas em 50%.
Por que o nome. O termo "socialização" indica que perdas que eram privadas (dos fazendeiros) foram transferidas para a sociedade como um todo (via tributos e emissão monetária). Mas o crucial é o efeito macroeconômico: ao socializar as perdas, o Estado manteve a renda monetária do setor cafeeiro mesmo quando o setor estava em colapso real. Essa renda mantida sustentou a demanda agregada — para comércio, transporte, serviços e, sobretudo, manufaturados.
Interpretação keynesiana avant la lettre. Furtado faz a leitura mais penetrante: a defesa do café foi, na prática, um programa anticíclico keynesiano antes de Keynes (a Teoria Geral é de 1936). O Estado expandiu seu gasto em momento de retração privada, sustentando a demanda agregada.
A controvérsia Peláez–Silber. Carlos Peláez contestou a interpretação furtadista mostrando que cerca de 65% das compras de café entre maio/1931 e fevereiro/1933 foram financiadas por impostos de exportação — ou seja, não houve criação líquida de moeda, apenas redistribuição entre cafeicultores.
Simão Silber respondeu apontando que, ao estender o período até 1934, apenas 48% das compras foram assim financiadas, e que os impostos sobre o café tinham incidência tributária parcial no comprador externo, dada a elasticidade-preço externa baixa. Além disso, a política monetária expandiu mais de 100% na década (Baer, p. 58). A interpretação furtadista, portanto, mantém-se em sua essência.
Definição. "Deslocamento do centro dinâmico" designa a transição do motor econômico do país: o centro dinâmico — o setor que determina o ritmo do crescimento da economia — deixa de ser o setor externo (exportador de café) e passa a ser o setor interno (industrial voltado ao mercado doméstico).
Mecanismo. A combinação de quatro fatores produz esse deslocamento: (i) sustentação da renda interna pela socialização das perdas — a demanda agregada não colapsa; (ii) inviabilização das importações pela combinação de câmbio desvalorizado + controles cambiais + queda da capacidade de importar; (iii) substituição da oferta importada pela produção interna — a indústria nacional, antes ociosa, passa a operar a plena carga; (iv) mudança nos preços relativos internos em favor dos manufaturados.
O sentido teórico mais profundo. Antes de 1930, a economia brasileira tinha um padrão de crescimento típico de economia primário-exportadora: o ciclo era determinado pelo preço internacional do café. Café em alta → renda alta → importações altas → economia em alta. O setor industrial era subsidiário. Depois de 1930, o padrão inverte-se. O ciclo passa a ser determinado pela dinâmica interna do investimento industrial e da demanda doméstica.
Evidência estatística. A participação da indústria nos produtos físicos brasileiros, estagnada em 21% em 1907 e 1919, salta para 43% em 1939. Em 1933-1939, a indústria cresce 11,3% a.a. enquanto a agricultura cresce 1,7% — sinal claro de que o motor já é outro.
Antes de 1933, o Brasil produzia menos de 10 mil toneladas anuais de algodão; em 1934 São Paulo sozinho colheu 90 mil toneladas. A participação brasileira na área mundial de cultivo de algodão saltou de 2% em 1929 para 8,7% em 1940, e a participação do algodão na pauta brasileira de exportações passou de 2,1% no fim dos anos 1920 para 18,6% em 1935-1939 (Baer, p. 56).
| Indicador | Antes (1929) | Depois (1934-39) | Multiplicação |
|---|---|---|---|
| Produção brasileira (mil t) | <10 | 90 (SP, 1934) | >9× |
| Participação na área mundial | 2% | 8,7% (1940) | 4,4× |
| Participação na pauta exportadora | 2,1% | 18,6% | 8,9× |
Três condições se articularam:
Condição 1 — Mudança nos preços relativos induzida pelo câmbio. A desvalorização do mil-réis em 1930-1931 encareceu o algodão importado em moeda nacional. A indústria têxtil brasileira, que era grande consumidora de algodão em pluma, viu sua matéria-prima ficar muito mais cara em mil-réis. Isso tornou economicamente viável produzir algodão no Brasil — algo que, no câmbio valorizado dos anos 1920, era marginalmente desvantajoso. O câmbio desvalorizado é o disparador microeconômico.
Condição 2 — Disponibilidade de terras e mão-de-obra deslocadas do café. A crise do café liberou terras e trabalhadores no oeste paulista. Fazendeiros cafeeiros endividados converteram parte de suas propriedades para algodão. Trabalhadores rurais que tinham migrado para o café foram absorvidos pelo cultivo do algodão. Houve, em essência, reconversão produtiva dentro do setor primário paulista.
Condição 3 — Demanda do mercado mundial em recomposição. A guerra civil chinesa, problemas climáticos no Texas e disputas comerciais entre Estados Unidos e Egito reduziram a oferta global de algodão em momentos específicos dos anos 1930. O Brasil aproveitou janelas para ganhar mercado externo.
O algodão exerceu três papéis articulados:
Função 1 — Geração de divisas. Em momento de extrema escassez cambial, com café em queda, a entrada de receita de exportação de algodão (que chegou a 18,6% da pauta) compensou parcialmente a queda do café.
Função 2 — Insumo para a indústria têxtil. O algodão brasileiro abasteceu o parque têxtil nacional com matéria-prima nacional, reduzindo a dependência de importação de algodão em pluma. É integração vertical induzida pela crise: a indústria têxtil, antes dependente de algodão importado, passa a se abastecer internamente. Isso reforçou o processo de SI também no nível dos insumos.
Função 3 — Reconversão produtiva regional. Para o oeste paulista, o algodão funcionou como amortecedor da crise rural, mantendo emprego e renda em região que poderia ter entrado em colapso social.
Limites da diversificação. É importante notar que a expansão do algodão não resolveu o problema estrutural da economia brasileira — apenas o amorteceu. O Brasil continuou sendo primário-exportador, agora com dois produtos (café e algodão) em lugar de apenas um. A diversificação ocorreu dentro do paradigma agro-exportador, não em ruptura com ele.
Os dados da Tabela 1 mostram, para a primeira metade dos anos 1930, índices de importação de bens de capital (1939 = 100) extremamente baixos: 99,7 (1930); 33,6 (1931); 28,9 (1932); 47,4 (1933); 82,9 (1934); 123,7 (1935). A média do quinquênio 1930-1934 é cerca de 58, contra 140 na década de 1920. A queda é da ordem de 60%, comparável em magnitude à queda da 1ª Guerra Mundial (média de 38 em 1914-1918).
À primeira vista, a expectativa seria de retração industrial: sem novos equipamentos, como expandir produção? No entanto, a produção industrial cresceu vigorosamente nesse exato período. O índice de produção industrial brasileira (1929 = 100) saiu de cerca de 95 em 1931 para 168 em 1935, com taxa anual média superior a 10%. Como reconciliar esses dois fatos?
A resposta envolve quatro mecanismos articulados que explicam por que a produção pôde crescer mesmo sem ampliação significativa da capacidade física instalada.
| Período | Índice médio bens de capital | Crescimento industrial |
|---|---|---|
| Anos 1920 | ~140 | 3,0% a.a. |
| 1930-1934 | ~58 (−60%) | >10% a.a. |
| 1935-1939 | ~119 (recuperação) | 11,3% a.a. (1933-39) |
Mecanismo 1 — Uso da capacidade ociosa formada nos anos 1920. A herança da década anterior foi decisiva. Como visto na questão 3, os anos 1920 foram caracterizados pela importação maciça e diversificada de bens de capital, financiada pelo BP superavitário. Essa importação superou em muito a demanda corrente da indústria daqueles anos. O resultado é que o Brasil chegou em 1929 com capacidade industrial instalada significativamente superior à utilizada. Em 1928-1929, sob ainda o efeito do câmbio valorizado dos anos 1920, várias fábricas operavam a 50-70% da capacidade nominal. Quando a crise externa derrubou as importações concorrentes e a defesa do café sustentou a demanda interna, essa capacidade ociosa foi rapidamente ativada. Em 1931 a produção industrial já havia retornado ao nível pré-1928, e em 1935 já era 68% superior — sem que tivesse havido investimento novo significativo (Baer, p. 56).
Mecanismo 2 — Proteção implícita pela combinação câmbio + controles. A desvalorização do mil-réis (de cerca de 50% entre 1929 e 1931) e os controles cambiais introduzidos no início dos anos 1930 produziram proteção efetiva muito superior à de qualquer tarifa formal. Os preços do similar importado em mil-réis dobraram, e em muitos casos os bens importados simplesmente não estavam disponíveis por falta de licença ou de divisas. A demanda represada voltou-se obrigatoriamente para o similar nacional.
Mecanismo 3 — Sustentação da renda via socialização das perdas. O programa de defesa do café (federalizado em 1931) sustentou a renda monetária interna. Sem essa sustentação, a queda da demanda interna teria neutralizado os efeitos da proteção cambial. Com renda sustentada e proteção plena, a indústria nacional capturou integralmente a demanda manufatureira do país.
Mecanismo 4 — Substituição de importações em bens de consumo leves. Os bens cujas importações caíram mais drasticamente nos anos 1930 foram exatamente os bens de consumo finais — tecidos prontos, vestuário, calçados, alimentos processados, bebidas. Esses são justamente os setores em que a indústria brasileira já tinha capacidade técnica e instalada. A substituição foi rápida e fácil em termos tecnológicos. Os bens cuja produção interna era impossível — bens de capital pesados, química fina, equipamentos elétricos complexos — continuaram sendo importados ou foram postergados. É o padrão típico da primeira etapa da substituição de importações.
A partir de 1935 o índice de importação de bens de capital começa a recuperar-se (123,7 em 1935; 114,5 em 1936; 143,2 em 1937; 122,5 em 1938) — sinal de que a indústria brasileira, depois de esgotar a capacidade ociosa, voltou a precisar de equipamentos para ampliar capacidade. O ciclo já começa a ser diferente: não mais apenas substituição de bens de consumo finais, mas avanço para bens intermediários (siderurgia, cimento, química básica) e tentativa de início de produção interna de bens de capital simples.
Esse desdobramento prepararia o passo seguinte da industrialização, com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN, 1941), da Companhia Vale do Rio Doce (1942), da Fábrica Nacional de Motores (1942) e da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (1945) — todas estatais surgidas no Estado Novo de Vargas como resposta ao gargalo de bens intermediários e de capital.
A Tabela 3.3 de Baer mostra os índices de produção setoriais para 1939, com 1929 = 100. O total atingiu 224,6 — a produção industrial brasileira mais que dobrou em uma década.
Papel (×7,8). O crescimento explosivo decorre da expansão da imprensa, da educação básica (alfabetização cresceu nos anos 1930), da urbanização e da consequente demanda por embalagens. A fundação da Klabin (1934, em Telêmaco Borba, PR) ampliou a oferta interna.
Minerais não-metálicos (×6,2). O setor é dominado pelo cimento. A indústria, que começara em 1924 com 30 mil toneladas/ano, cresceu vertiginosamente: nove fábricas em operação em 1939, com produção superior a 700 mil toneladas. O cimento é insumo essencial para a urbanização e para obras públicas (rodovias, ferrovias, hidrelétricas).
Produtos metalúrgicos (×4,0). O setor expandiu-se rapidamente com a entrada em operação da Belgo-Mineira em João Monlevade (Minas Gerais), inaugurada em 1937 — primeira siderúrgica integrada do Brasil em grande escala. A capacidade nacional de aço, que era de cerca de 80 mil toneladas em 1929, chegou a quase 300 mil em 1939.
Têxteis (×2,47). O setor dobrou em uma década apesar de ser já o mais maduro. Aproveitou-se da capacidade ociosa instalada nos anos 1920, da proteção cambial e da expansão do mercado interno urbano. Em 1939 o Brasil cobria efetivamente 100% do seu consumo de têxteis básicos.
| Setor | Índice 1939 | Multiplicação | Motor |
|---|---|---|---|
| Papel | 781,9 | 7,8× | Urbanização + alfabetização + Klabin (1934) |
| Minerais não-metálicos | 619,5 | 6,2× | Cimento — construção urbana |
| Produtos metalúrgicos | 397,7 | 4,0× | Belgo-Mineira em Monlevade (1937) |
| Têxteis | 247,0 | 2,5× | Cap. ociosa + proteção |
| Químicos | 151,2 | 1,5× | Subsidiárias estrangeiras |
| Bebidas | 129,6 | 1,3× | Renda + urbanização |
| Alimentos | 124,9 | 1,2× | População urbana |
| Total | 224,6 | 2,2× | — |
O padrão da 2ª Guerra repete em larga medida o da 1ª: a produção industrial cresceu (5,4% a.a. em 1939-1945) mas a expansão da capacidade foi limitada. A diferença em relação à 1ª Guerra é que houve, sim, algumas expansões setoriais importantes — particularmente em siderurgia, com a construção de Volta Redonda (CSN começa a operar em 1946) e a entrada em produção da Vale do Rio Doce e da FNM. Em outros setores, entretanto, o parque industrial brasileiro entrou na guerra em más condições de manutenção (depreciado pela deficiência de reposição dos anos 1930) e saiu da guerra ainda mais exaurido.
Os índices de produção mostram crescimento, mas o índice de bens de capital colapsa novamente: 100,0 em 1939; 86,5 em 1941; 67,1 em 1942. Pior do que a 1ª Guerra. A reposição de equipamentos foi mínima durante o conflito. Houve picos em 1943-1944 (176,1 e 166,7) por causa especificamente dos equipamentos importados para a CSN, financiados pelo Eximbank americano, mas o resto da indústria operou com depreciação acelerada do estoque de capital.
| Ano | Índice MK | Comentário |
|---|---|---|
| 1939 | 100,0 | Base |
| 1941 | 86,5 | Início da queda |
| 1942 | 67,1 | Pior momento |
| 1943 | 176,1 | Salto: equipamentos para CSN |
| 1944 | 166,7 | Continuação |
| 1945 | 82,7 | Fim do conflito |
A afirmação da questão de que "as exportações de têxteis ficaram restritas ao mercado interno" é incorreta. Na verdade, ocorreu o oposto: durante a 2ª Guerra Mundial, os têxteis brasileiros tiveram o maior surto exportador da história da indústria brasileira até aquele momento.
O mecanismo foi conjuntural: o Japão (grande exportador têxtil mundial) ficou cortado dos mercados ocidentais pela guerra; a Inglaterra e os EUA converteram parte de seu parque têxtil para produção militar (uniformes, equipamentos); a Índia britânica enfrentou desorganização logística. O Brasil — que tinha parque têxtil maduro, capacidade ociosa significativa e disponibilidade de algodão nacional — ocupou parte desses mercados.
Os têxteis chegaram a representar cerca de 20% das exportações brasileiras em meados dos anos 1940 — patamar inédito para um produto manufaturado brasileiro. Destinos: América Latina, África do Sul, Ásia, Oriente Médio.
Mas a expansão exportadora foi efêmera. Tão logo a guerra terminou em 1945, os parques têxteis tradicionais (Japão, Inglaterra, EUA) recompuseram-se rapidamente. O Brasil, com parque exaurido pela guerra, custos altos e qualidade inferior, perdeu mercado externo. Os têxteis desapareceram da pauta de exportações brasileiras a partir de 1947-1948 e só voltariam parcialmente nas décadas seguintes.
Werner Baer faz uma distinção conceitual fundamental, formulada explicitamente no capítulo 3 de A Economia Brasileira, entre desenvolvimento industrial e industrialização. A distinção é central para entender a trajetória brasileira e para situar com precisão o que mudou em 1930.
Desenvolvimento industrial designa o crescimento quantitativo do setor industrial sem que isso implique mudança estrutural na economia. É o aumento do número de fábricas, do volume de produção industrial, do emprego no setor — mas sem que a indústria se torne o motor autônomo do crescimento. A indústria continua a crescer no compasso e em função do setor exportador primário, sem ter dinâmica própria.
Industrialização é coisa diferente: designa processo de mudança estrutural em que a indústria se torna o centro dinâmico da economia, com lógica de acumulação interna, ciclos de investimento próprios, capacidade de gerar demanda derivada e de organizar o crescimento de outros setores. É a indústria como motor autônomo, com peso decisivo no PIB, no emprego, na pauta exportadora e na organização social e urbana do país.
| Critério | Desenvolvimento industrial | Industrialização |
|---|---|---|
| Período brasileiro | 1840 - fim dos anos 1920 | A partir de 1930 |
| Tipo de crescimento | Quantitativo (mais fábricas, mesma estrutura) | Qualitativo (muda a estrutura) |
| Setor líder | Setor exportador (café) | Indústria |
| Indústria é | Subordinada ao setor externo | Motor autônomo |
| % indústria | ~21% (1907 e 1919) | 43% em 1939 |
| Composição | Bens de consumo simples | Bens intermediários e de capital emergem |
| Mudança estrutural | Não pronunciada | Pronunciada |
A data divisória, para Baer, é 1930. Antes: desenvolvimento industrial subordinado ao café. Depois: industrialização autônoma com substituição de importações.
Os dados estatísticos confirmam o corte. As taxas anuais de crescimento por setor: 1920-1929 — indústria 2,8% / agricultura 4,1% (a agricultura é mais dinâmica). 1933-1939 — indústria 11,3% / agricultura 1,7% (a indústria é 6,6× mais dinâmica). 1939-1945 — indústria 5,4% / agricultura 1,7% (a indústria mantém liderança).
A reversão é gritante. Antes de 1930 a agricultura crescia mais que a indústria; depois de 1930 a indústria cresce muitas vezes mais que a agricultura. É o critério empírico do deslocamento do centro dinâmico de Furtado, agora articulado conceitualmente por Baer como a passagem do desenvolvimento industrial à industrialização.
| Período | Indústria | Agricultura | Líder |
|---|---|---|---|
| 1920-1929 | 2,8% | 4,1% | Agricultura |
| 1933-1939 | 11,3% | 1,7% | Indústria (6,65×) |
| 1939-1945 | 5,4% | 1,7% | Indústria (3,18×) |
A distinção tem três usos analíticos importantes:
Primeiro, ela permite rejeitar a tese ingênua de que a industrialização brasileira começa em 1808 (com a vinda da família real), em 1844 (Tarifa Alves Branco) ou em 1890 (Encilhamento). Esses são marcos do desenvolvimento industrial — não da industrialização propriamente dita.
Segundo, ela permite identificar o papel da política econômica: a industrialização não foi produto espontâneo do mercado, mas resultado de uma combinação de fatores externos (crises mundiais que isolaram a economia brasileira do similar importado) e fatores internos (política deliberada do Estado a partir de Vargas, depois consolidada por Kubitschek). É o argumento estruturalista clássico: industrialização em país periférico requer ação deliberada do Estado.
Terceiro, ela permite avaliar a maturidade do processo: a industrialização brasileira foi um processo de várias décadas, atravessando diferentes etapas (bens de consumo finais → bens intermediários → bens de capital), com avanços e regressões. Ao usar critério estrito (industrialização = mudança estrutural), pode-se afirmar que o processo brasileiro só se completou plenamente no final dos anos 1970, com o II PND.
O Brasil terminou a 2ª Guerra com situação aparentemente confortável no setor externo. Durante o conflito, três fatores produziram superávits comerciais sucessivos: (i) as importações foram reprimidas pela escassez mundial de manufaturados e pela impossibilidade prática de comprar bens de capital na Europa em guerra; (ii) as exportações cresceram em volume e em receita — produtos primários demandados pelo esforço de guerra (borracha sintética, manganês, mica, cristal de quartzo, cacau, açúcar) e, pela primeira vez de forma significativa, manufaturados, sobretudo têxteis (que chegaram a 20% da pauta); (iii) os preços internacionais dos primários e manufaturados estavam altos pela escassez global.
O resultado foi acúmulo de reservas: passaram de US$ 71 milhões antes da guerra para US$ 708 milhões em 1945 (Baer, p. 71). Em valores nominais, aumento de quase 10×.
A literatura ortodoxa da época interpretou o estoque de US$ 708 milhões como uma reserva confortável. Mas a composição era problemática. Giambiagi et al. (p. 4) detalham:
A distinção é crucial. O Brasil tinha superávit com a Europa (em moedas inconversíveis: libras bloqueadas, francos, liras) e déficit crescente com os Estados Unidos (em moeda conversível: o dólar). E era exatamente nos EUA que estava o fornecedor essencial: bens de capital, química industrial, combustíveis, produtos manufaturados sofisticados que o Brasil precisava para reequipar seu parque industrial deteriorado.
Essa situação criou o que Giambiagi chama de "ilusão de divisas": a reserva agregada parecia robusta, mas a reserva efetivamente utilizável para importações essenciais era pequena. O governo Dutra leu mal essa situação.
| Componente | US$ mi | Status |
|---|---|---|
| Ouro estratégico | ~350 | Intocável |
| Libras esterlinas bloqueadas | 235 | Bloqueadas pela Inglaterra |
| Moeda conversível líquida | 92 | Único valor utilizável |
| Outras inconversíveis | ~30 | Sem valor prático |
Em fevereiro de 1945, ainda no apagar das luzes do Estado Novo, instituiu-se regime cambial sem restrições: todas as importações foram liberadas, exceto remessa de lucros. A justificativa oficial combinava três argumentos:
Argumento 1 — Diagnóstico de inflação de demanda. O governo via a inflação acumulada durante a guerra (cerca de 11% em 1945) como decorrente de excesso de moeda em circulação frente a oferta restrita de bens. A solução proposta era abrir as importações: aumentar a oferta interna via importados baratos para "amortecer" a pressão de demanda. O raciocínio é teoricamente correto sob a hipótese de excesso de demanda, mas dependia de divisas que efetivamente o Brasil não tinha.
Argumento 2 — "Ilusão de divisas". A leitura otimista do estoque de reservas. Se realmente havia US$ 708 milhões em reservas, parecia razoável usá-las para importar e modernizar o parque industrial. Mas, descontados ouro estratégico e libras bloqueadas, sobrava muito menos.
Argumento 3 — Modernização tecnológica. O parque industrial brasileiro havia se deteriorado durante a guerra. Abrir as importações de bens de capital permitiria reequipar a indústria, importando máquinas mais modernas para substituir as obsoletas.
O resultado foi catastrófico. Em pouco mais de um ano as reservas líquidas estavam esgotadas. As importações cresceram 40% em quantidade e 80% em valor entre 1946 e 1947. Boa parte foi de bens de consumo (automóveis, eletrodomésticos, perfumaria, vinhos), não de bens de capital. O efeito modernizador foi marginal; o efeito sobre o BP foi devastador.
Em 1946 o câmbio foi mantido fixo em Cr$ 18,50 por dólar — paridade que vinha do pré-guerra e seria preservada até a Instrução 70 da SUMOC em 1953. Durante esses oito anos, entretanto, os preços internos brasileiros subiram aproximadamente 285%, enquanto os preços nos EUA cresceram modestamente (cerca de 30-40% no mesmo período). A consequência matemática é sobrevalorização real progressiva e severa.
Em termos de taxa de câmbio real (q = e × P*/P, onde e é o câmbio nominal, P* o preço externo e P o preço interno), o cruzeiro tornou-se cada vez mais sobrevalorizado. Em fins de 1953, a paridade teria que ter sido ajustada para algo em torno de Cr$ 50-70 por dólar para refletir a paridade de poder de compra real.
A sobrevalorização produziu efeitos econômicos amplos:
Efeito 1 — Estímulo artificial às importações. Bens importados ficaram artificialmente baratos em mil-réis, gerando pressão crescente sobre o BP. Foi um dos motivos do esgotamento das reservas em 1947.
Efeito 2 — Desestímulo às exportações em moeda forte. Em tese, os exportadores brasileiros recebiam menos cruzeiros por cada dólar exportado do que receberiam num câmbio de equilíbrio. Esse efeito foi parcialmente compensado pelo boom internacional do café a partir de 1949 (que dobrou o preço do café em poucos anos), mas operou em sentido geral negativo.
Efeito 3 — "Confisco cambial". Os cafeicultores receberam pelo café exportado uma taxa de câmbio sobrevalorizada (Cr$ 18,50/US$), enquanto o preço interno em cruzeiros era determinado por essa paridade. A diferença entre o que receberiam com câmbio de equilíbrio e o que efetivamente receberam constituiu transferência forçada do setor cafeeiro para o resto da economia — o famoso "confisco cambial". Estimativas variam, mas o confisco anual chegou a representar 5-10% do PIB durante os anos 1947-1953.
Efeito 4 — Subsídio implícito à industrialização. O outro lado do confisco cambial. Os industriais brasileiros, importando insumos e bens de capital ao câmbio sobrevalorizado, obtinham implicitamente um subsídio: as máquinas e insumos importados eram artificialmente baratos. Isso favoreceu fortemente a expansão industrial.
| Efeito | Quem ganha | Quem perde |
|---|---|---|
| Estímulo às M | Consumidor urbano | Reservas |
| Desestímulo às X | — | Cafeicultores |
| Confisco cambial | Estado | Cafeicultores (5-10% PIB) |
| Subsídio industrial | Industriais | Cafeicultores + contribuintes |
Três razões intelectuais e políticas justificavam a defesa da paridade:
Esgotadas as reservas em 1947, o governo abandonou a liberalização e instituiu controles. Em junho de 1947 reintroduziram-se controles cambiais via SUMOC. Em fevereiro de 1948 instituiu-se o sistema de licenciamento prévio das importações, administrado pelo Cexim — Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil.
O mecanismo era simples: nenhuma importação podia ser feita sem licença prévia do Cexim. As importações foram classificadas em cinco categorias de prioridade baseadas em critério de essencialidade econômica. As três primeiras categorias absorviam mais de 80% das divisas alocadas; a categoria 5 era na prática vetada (Baer, p. 72). Em paralelo, instituíram-se restrições à remessa de capitais: repatriação limitada a 20% ao ano e remessa de lucros a 8% ao ano.
| Cat. | Bens | Acesso |
|---|---|---|
| 1 — Livres | Remédios, fertilizantes, inseticidas | Automático |
| 2 — Prioritários | Combustíveis, alimentos essenciais, MK industrial, cimento, papel | Alto |
| 3 — Médios | Bens intermediários | Médio |
| 4 — Restritos | Bens duráveis | Baixo |
| 5 — Supérfluos | Perfumaria, vinhos, autos de luxo | Quase vetado |
O governo apresentou três objetivos oficiais para o sistema:
Objetivo 1 — Racionar a moeda estrangeira escassa. Com as reservas líquidas esgotadas, era preciso garantir que as divisas remanescentes fossem usadas em bens efetivamente essenciais. O sistema de prioridades fazia exatamente isso: matérias-primas industriais e maquinário tinham prioridade, bens de consumo supérfluos eram vetados.
Objetivo 2 — Combater a inflação importando seletivamente. Manteve-se o diagnóstico de inflação de demanda. Permitir importação de alimentos, combustíveis e insumos industriais ao câmbio sobrevalorizado mantinha esses preços contidos internamente.
Objetivo 3 — Equilibrar o balanço de pagamentos. Reduzir o déficit comercial até níveis cobertos pelas exportações + entradas de capital.
O objetivo não declarado — a proteção industrial. O efeito mais consequente do sistema, entretanto, não foi o que estava nos objetivos declarados. Foi a proteção tarifária implícita e o subsídio aos insumos industriais, que transformaram o licenciamento no instrumento de política industrial mais importante do Brasil pré-Plano de Metas. Giambiagi et al. (pp. 6-7) decompõem essa proteção em três efeitos simultâneos:
Efeito subsídio. Insumos e bens de capital importados eram pagos ao câmbio sobrevalorizado. Como o câmbio real de equilíbrio seria muito superior, os industriais brasileiros recebiam, na prática, um subsídio cambial sobre seus insumos.
Efeito protecionista. Bens de consumo finais que competiam com a indústria brasileira eram classificados em categorias inferiores (4 e 5) e enfrentavam ágios proibitivos ou simples veto. A indústria nacional ficou integralmente protegida dos concorrentes externos no mercado interno — proteção muito superior à de qualquer tarifa formal.
Efeito alteração de preços relativos. A combinação produziu mudança brutal nos preços relativos a favor da produção interna, tornando os investimentos industriais muito mais lucrativos.
O resultado industrial foi um surto. A produção industrial brasileira cresceu 9% a.a. em média durante o governo Dutra (1946-1951), com aceleração no quinquênio do licenciamento. A produção total da indústria foi 42% maior em 1951 que em 1947. Setores particularmente dinâmicos:
É a fase em que a indústria brasileira avança de bens de consumo finais leves (têxteis, alimentos) para bens intermediários e bens de consumo duráveis simples. A próxima etapa — bens de capital pesados — virá no Plano de Metas.
| Setor | Crescimento médio (% a.a.) |
|---|---|
| Indústria total | 9% (42% em 4 anos) |
| Material elétrico | 28% |
| Material de transporte | 25% |
| Metalurgia | 22% |
O governo Dutra diagnosticou a inflação acumulada da guerra (cerca de 11% em 1945, mas com pressão de demanda represada significativa) como inflação de demanda — excesso de moeda em circulação frente a oferta restrita de bens.
Essa leitura é tipicamente monetarista/clássica: a causa última da inflação é o excesso monetário, e a solução é restringir a oferta de moeda (política monetária restritiva) ou aumentar a oferta de bens (abertura comercial).
É leitura coerente com a tradição liberal predominante na equipe econômica de Dutra, sobretudo com Eugênio Gudin, que era influência intelectual importante. Note-se que essa leitura é diametralmente oposta à interpretação estruturalista que a CEPAL formularia no início dos anos 1950, segundo a qual a inflação latino-americana decorria de gargalos setoriais, desorganização produtiva, conflito distributivo e câmbio defasado — não de excesso monetário.
A escolha do diagnóstico de "inflação de demanda" justificou a estratégia de Dutra: liberalizar importações para aumentar oferta interna, contrair política monetária, manter câmbio fixo como âncora.
A política monetária do governo Dutra teve duas fases distintas:
Fase 1 — Ortodoxia (1946-1949). Política monetária e fiscal restritivas, com objetivo de combater inflação. Contenção do crédito do Banco do Brasil, redução dos déficits orçamentários, busca de equilíbrio fiscal. Resultado: inflação relativamente controlada (oscilou entre 2,7% em 1947 e 12% em 1948-49); leves superávits fiscais em 1947-48. PIB cresceu ~6,8% a.a. em média.
Fase 2 — Afrouxamento (1949-1951). Mudança de orientação. O crédito do BB cresceu para financiar a expansão industrial; déficit fiscal reapareceu; emissão monetária aumentou. Resultado: indústria acelerou para 9% a.a., mas inflação saltou para 12,3% em 1949 e 12,4% em 1950 e 11% em 1951. O Plano SALTE (1948) tentou organizar gastos públicos mas teve execução parcial.
| Fase | Período | Postura | Resultado |
|---|---|---|---|
| Ortodoxia | 1946-1949 | Contenção monetária + superávit primário | Inflação média 11%, superávits 1947-48 |
| Afrouxamento | 1949-1951 | Crédito BB expande, déficit reaparece | Boom industrial + inflação ressurge |
| Ano | Inflação | Comentário |
|---|---|---|
| 1945 | 11% | Herança da guerra |
| 1946 | 22% | Efeito da liberalização cambial |
| 1947 | 2,7% | Ápice da ortodoxia + controles |
| 1948 | 8% | Estabilização |
| 1949 | 12,3% | Afrouxamento começa |
| 1950 | 12,4% | Pré-Vargas II |
O único plano formal de governo foi o Plano SALTE — Saúde, Alimentação, Transporte, Energia —, apresentado em 1948 para o quinquênio 1949-1953. Era projeto ambicioso: investimento de Cr$ 19,9 bilhões em quatro setores estratégicos. Mas o plano não tinha fontes de financiamento bem definidas, esperava-se cobrir os custos com emissão, empréstimos e cortes em outros gastos.
Na prática, o Plano SALTE foi executado parcialmente: avançaram alguns projetos em transporte e energia, mas sem a coordenação setorial que o Plano de Metas teria depois. O Plano foi formalmente extinto no governo Café Filho. A historiografia o trata como precursor do Plano de Metas — ensaio de planejamento setorial que serviu de base para a articulação mais sofisticada dos anos 1950.
O balanço do governo Dutra é paradoxal. Uma administração que se queria ortodoxa e antinflacionária acabou, por via do licenciamento, produzindo o ambiente mais favorável à industrialização brasileira até aquele momento. A inflação foi parcialmente contida (oscilando entre 2,7% e 22%, com média próxima de 11% a.a.), o PIB cresceu acima de 6% a.a., a indústria cresceu 9% a.a., a urbanização avançou, o parque industrial diversificou-se.
Os custos: reservas externas esgotadas, paridade cambial defasada (semente de crise para o próximo governo), distorções alocativas no sistema de licenciamento, ausência de reformas estruturais (tributária, agrária, financeira).
O Brasil entregou-se a Vargas em janeiro de 1951 com economia em expansão, indústria modernizada, mas com reservas exauridas, câmbio defasado e inflação ressurgindo. Esses serão exatamente os problemas que dominarão o segundo governo Vargas.
Vargas assumiu a Presidência em 31 de janeiro de 1951, depois de retornar via eleição democrática (a primeira após sua deposição em 1945). Herdou um quadro externo que, à primeira vista, parecia favorável, mas que era estruturalmente frágil. A análise correta requer separar três planos: o cíclico imediato, o estrutural acumulado e o geopolítico contemporâneo.
Entre 1949 e 1951 o preço internacional do café passou por boom espetacular. As causas foram externas ao Brasil:
O preço do café saca subiu de cerca de US$ 22 em 1948 para US$ 50 em 1951 — mais que dobrou. O Brasil aproveitou: a receita cafeeira em 1951 atingiu cerca de 70% das exportações totais (US$ 1,77 bilhão), patamar próximo do pico histórico. Esse boom gerou superávit comercial e ilusão de estabilidade externa. Mas era cíclico.
Os problemas estruturais herdados do governo Dutra eram graves:
A Guerra da Coreia, iniciada em junho de 1950 (apenas oito meses antes da posse de Vargas), trouxe duplo efeito:
Efeito positivo de curto prazo: alta dos preços internacionais de commodities pela escassez gerada pelo esforço de guerra americano. O Brasil exportou bem.
Efeito negativo estrutural: receio de que a guerra se prolongasse e gerasse nova escassez global de bens de capital (como a 2ª Guerra). Isso levou o governo Vargas a acelerar a liberalização das importações em 1951, antecipando compras de bens de capital antes que a escassez global se materializasse. Cresceram as importações de US$ 950 milhões/ano (média 1948-1950) para US$ 1,7 bilhão em 1951-1952 — quase dobrando em dois anos.
Vargas chegou à Presidência com um projeto desenvolvimentista claro, articulado intelectualmente por Roberto Campos, Jesus Soares Pereira e outros. Era projeto em duas fases, batizadas com referências históricas:
Fase 1 — "Campos Sales" (1951-1952): estabilização ortodoxa, em homenagem ao Presidente de 1898-1902 que praticou ortodoxia rigorosa após a crise do Encilhamento. Conter inflação, equilibrar contas externas, normalizar relações com credores.
Fase 2 — "Rodrigues Alves" (1953-1954): grandes empreendimentos, em homenagem ao Presidente de 1902-1906 que praticou modernização agressiva (reforma do porto do Rio, urbanização da capital, ferrovias). Lançar projetos estruturantes de infraestrutura e indústria de base.
A capacidade de executar a Fase 2 dependia, na visão do governo, de cooperação financeira norte-americana. Era o pano de fundo da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos.
A Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, conhecida como CMBEU, foi criada por acordo bilateral em dezembro de 1950 e funcionou efetivamente de julho de 1951 a dezembro de 1953. Sua criação ocorreu no contexto da boa relação bilateral pós-guerra: o Brasil havia sido aliado dos EUA na 2ª Guerra (com participação militar na Itália via FEB) e havia recebido financiamento para Volta Redonda em troca de bases militares.
O presidente Truman, ainda no clima da Guerra Fria nascente, queria fortalecer alianças com países latino-americanos para conter influência soviética e garantir suprimento de matérias-primas estratégicas. Vargas, do seu lado, queria recursos para financiar a fase 2 do seu projeto desenvolvimentista. Os interesses confluíam.
A CMBEU tinha três objetivos formais:
Objetivo 1 — Diagnosticar os gargalos do desenvolvimento brasileiro. Identificar setores em que a falta de capacidade frenava o crescimento econômico geral — o que se chamava de "pontos de estrangulamento". Os gargalos identificados foram principalmente em:
Objetivo 2 — Elaborar projetos concretos de investimento em infraestrutura para superar esses gargalos, com estudos técnicos detalhados de engenharia, custo, prazo e retorno.
Objetivo 3 — Operacionalizar o financiamento desses projetos via Eximbank (Export-Import Bank dos EUA) e Banco Mundial (BIRD). Havia promessa inicial de US$ 500 milhões em financiamento.
A Comissão produziu 41 projetos detalhados de investimento, concentrados em transporte (ferrovias e portos), energia elétrica, navegação fluvial e estoque agrícola. Os projetos foram tecnicamente sólidos.
A herança institucional mais duradoura da CMBEU foi a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), pela Lei nº 1.628 de 20 de junho de 1952, sancionada por Vargas. O BNDE foi criado com duas funções iniciais:
O BNDE tornou-se rapidamente a principal instituição brasileira de financiamento de longo prazo. Seria peça central do Plano de Metas de Kubitschek, do II PND de Geisel, e continua sendo (já como BNDES, depois da incorporação social em 1982) a maior instituição de financiamento de desenvolvimento da América Latina.
A importância dessa criação dificilmente é exagerada. Antes do BNDE, o Brasil não tinha instituição capaz de fornecer crédito de longo prazo a juros razoáveis para projetos industriais e de infraestrutura. O sistema bancário privado operava em horizontes curtos. O BNDE preencheu essa lacuna estrutural — sem ele, o Plano de Metas seria impensável.
A CMBEU não atingiu seus objetivos financeiros. As causas foram externas:
Resultado: dos US$ 500 milhões inicialmente prometidos, o Eximbank e o Banco Mundial liberaram apenas uma fração. A CMBEU foi formalmente extinta em dezembro de 1953, e o BNDE precisou ser reorientado: passou a financiar projetos com recursos internos e a buscar fontes alternativas de financiamento externo.
A política econômica do primeiro biênio do governo Vargas II foi conduzida por Horácio Lafer (Ministro da Fazenda) e teve caráter ortodoxo claro. Lafer era empresário paulista com formação no liberalismo econômico, próximo ao pensamento de Eugênio Gudin.
O projeto era: estabilizar a economia (Fase 1 — "Campos Sales") antes de lançar os grandes empreendimentos (Fase 2 — "Rodrigues Alves"). A premissa era que a inflação herdada de Dutra (12% em 1950) e o déficit do Tesouro precisavam ser eliminados como condição para o crescimento sustentável.
Política fiscal: contenção de despesas (corte de obras públicas não-prioritárias, congelamento de salários do funcionalismo); elevação da arrecadação (ampliação da base tributária urbana, aumento de alíquotas do Imposto de Renda). Resultado: superávit primário do Tesouro Federal em 1951 e 1952, e quando consolidado com os estados (que também praticaram ortodoxia), produziu o primeiro superávit fiscal global desde 1926 (Giambiagi, p. 10). Esse é um marco fiscal raro na história brasileira do século XX.
Política monetária: elevação dos depósitos compulsórios bancários; contenção do crédito do Banco do Brasil; redução da expansão da base monetária.
Resultado macroeconômico do biênio: PIB cresceu 4,9% em 1951 e 7,3% em 1952 — bom desempenho dadas as restrições. Inflação ficou contida em torno de 12% em 1951 e 12,7% em 1952 — não caiu como esperado, mas não disparou. Indústria continuou crescendo, embora em ritmo moderado.
Sim, é correto afirmar que a política fiscal do governo foi ortodoxa em 1951-1952. Os números corroboram. Houve esforço efetivo de contenção fiscal e monetária, com superávit primário raro.
| Ano | PIB | Inflação |
|---|---|---|
| 1951 | 4,9% | 12% |
| 1952 | 7,3% | 12,7% |
| 1953 | 4,7% | 20,5% |
| 1954 | 7,8% | 25,9% |
Em julho de 1953, Oswaldo Aranha substituiu Lafer no Ministério da Fazenda. A mudança refletiu pressões políticas múltiplas: críticas dos setores industriais à ortodoxia, demanda dos sindicatos por aumentos salariais, e a percepção do próprio Vargas de que a Fase 1 deveria dar lugar à Fase 2.
Aranha não era um homem de ortodoxia rígida. Era político-diplomata pragmático (havia sido Ministro da Fazenda em 1934 sob Vargas, embaixador nos EUA, presidente da Assembleia Geral da ONU em 1947). Sua gestão foi mais flexível.
Eventos críticos de 1953:
A política fiscal deixou de ser ortodoxa a partir de meados de 1953. Houve afrouxamento fiscal (com déficits crescentes), expansão monetária (via crédito do Banco do Brasil aos investimentos industriais) e desvalorização cambial (via Instrução 70). A inflação subiu para 20,5% em 1953 e 25,9% em 1954, contradizendo a premissa original do governo.
As taxas oficiais de crescimento do PIB brasileiro no segundo governo Vargas foram:
Foi crescimento sólido — superior à média histórica brasileira pré-1930, embora inferior ao que o Plano de Metas produziria depois (8,1% a.a.).
O crescimento ocorreu apesar das restrições cambiais e da política monetária inicialmente restritiva, sustentado por: (i) boom cafeeiro (até 1953); (ii) investimentos públicos em infraestrutura (CHESF, ampliação de Volta Redonda, primeiros desenvolvimentos da Petrobras); (iii) investimentos privados em substituição de importações facilitados pelo Cexim e depois pela Instrução 70; (iv) recuperação industrial em setores de bens de consumo duráveis e intermediários.
É padrão clássico de crescimento puxado pela demanda interna em economia com capacidade ociosa e proteção comercial — o modelo que se consolidará no Plano de Metas.
Em 9 de outubro de 1953, em meio à crise cambial aguda do governo Vargas II, a SUMOC emitiu a Instrução 70, que substituiu profundamente o regime cambial brasileiro. Foi uma das reformas econômicas mais importantes da história brasileira.
O contexto. As importações de 1951-52 haviam superado em muito a capacidade de financiamento. Os atrasados comerciais ultrapassaram US$ 610 milhões. As reservas líquidas estavam zeradas. A paridade cambial de Cr$ 18,50/US$ estava defasada em 60-70%. Era preciso ação institucional ampla.
O mecanismo da Instrução 70. Estabeleceu monopólio cambial do Banco do Brasil e sistema de leilões de divisas com múltiplas taxas. O Banco passava a ser o único agente legal a comprar divisas dos exportadores e a vendê-las aos importadores, em sistema de mercado dirigido.
Para exportadores: o BB comprava as divisas a uma taxa-base + bonificação, sendo a bonificação maior para produtos não-tradicionais (estímulo à diversificação da pauta) e menor para produtos tradicionais (café, sobretudo, que continuava sob "confisco cambial").
Para importadores: as divisas eram vendidas em leilões organizados, com as importações classificadas em cinco categorias de essencialidade (parecidas com as do Cexim mas com mecânica diferente). Cada categoria tinha um ágio diferente sobre a taxa-base:
Os ágios podiam superar 200% sobre a taxa-base nas categorias mais altas — desvalorização efetiva massiva, embora politicamente vendida como "mecanismo de mercado" e não como desvalorização formal.
| Categoria | Bens | Ágio |
|---|---|---|
| I | Combustíveis, fertilizantes | nulo/mínimo |
| II | Equipamentos industriais | baixo |
| III | Média essencialidade | médio |
| IV | Não-essenciais | alto |
| V | Supérfluos | >200% (proibitivo) |
A Instrução 70 atingiu cinco objetivos simultâneos — daí sua importância histórica e teórica:
Objetivo 1 — Desvalorização cambial efetiva sem reconhecimento formal. Os ágios das categorias mais altas funcionaram como desvalorização. Para um importador de bem da categoria IV, o custo em cruzeiros do dólar era 3× ou mais o valor nominal de Cr$ 18,50. A paridade real média da economia foi violentamente desvalorizada — sem que o governo precisasse anunciar uma "desvalorização cambial", que teria custo político alto.
Objetivo 2 — Alocação seletiva via mecanismo de mercado. Em vez de o Cexim alocar burocraticamente as divisas categoria por categoria, o mercado de leilões fazia essa alocação automaticamente, com os importadores de cada categoria competindo pelos lotes disponíveis. Era abordagem mais flexível, menos discricionária, menos sujeita a corrupção administrativa.
Objetivo 3 — Receita fiscal substancial para o Tesouro. A diferença entre o que o BB pagava aos exportadores (taxa-base + bonificação) e o que cobrava dos importadores (taxa-base + ágio) gerava receita líquida fiscal. Estima-se que a Instrução 70 gerou receita anual equivalente a 1-2% do PIB durante seu período de vigência — fonte de financiamento sem necessidade de novos impostos.
Objetivo 4 — Alívio ao setor cafeeiro. A bonificação que o BB pagava sobre as exportações cafeeiras, embora pequena, representou alguma redução do confisco cambial e ajudou a apaziguar politicamente os cafeicultores.
Objetivo 5 — Flexibilidade político-administrativa. O governo passava a poder ajustar categorias e ágios discricionariamente, conforme a evolução do BP e prioridades industriais. A política cambial-comercial tornou-se mais ágil e responsiva.
Efeitos macroeconômicos no curto prazo:
Significado histórico. A Instrução 70 estabeleceu o regime cambial brasileiro até a reforma de 1957 (sob Kubitschek), e influenciou todo o pensamento cambial brasileiro posterior. Conceitualmente, ela operacionalizou pela primeira vez a ideia de taxa de câmbio múltipla calibrada por categoria de bem — uma ideia que voltará em diferentes momentos (regime de bandas, taxas administradas, leilões do Banco Central).
Foi a mais importante reforma cambial brasileira entre 1898 (Funding Loan) e 1968 (regime de mini-desvalorizações), e ainda hoje é estudada como caso clássico de reforma cambial em país periférico com restrição externa estrutural.
Em 24 de agosto de 1954, Vargas suicidou-se no Palácio do Catete em meio à crise política provocada pelo atentado da Rua Tonelero contra Carlos Lacerda. O vice-presidente, João Café Filho (PSP), assumiu a Presidência.
Café Filho era político tradicional do Nordeste, sem projeto econômico próprio. Optou por governo de transição, com gabinete tecnocrático de orientação ortodoxa, voltado para enfrentar a herança macroeconômica difícil de Vargas. Convidou para o Ministério da Fazenda o economista Eugênio Gudin.
Gudin é figura central da história do pensamento econômico brasileiro. Era o principal expoente do liberalismo econômico ortodoxo no Brasil — defensor de estabilização monetária estrita, abertura controlada, disciplina fiscal e fortalecimento do setor privado. Era também professor da PUC-Rio (fundador da Fundação Getulio Vargas/RJ) e crítico ferrenho do desenvolvimentismo cepalino.
O programa de Gudin tinha três eixos:
Gudin viajou aos Estados Unidos buscando empréstimo amplo. Conseguiu apenas US$ 80 mi de fontes oficiais + US$ 200 mi de bancos privados americanos — total de US$ 280 mi, muito aquém dos US$ 500 mi originalmente discutidos na CMBEU.
Em 27 de janeiro de 1955, a Superintendência da Moeda e do Crédito emitiu a Instrução 113, peça que se tornaria mais importante do que o próprio programa de estabilização de Gudin.
Mecanismo. A Instrução 113 autorizava a Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil (Cacex) a emitir licenças de importação sem cobertura cambial para equipamentos e bens de produção, desde que internalizados como contrapartida do capital próprio do investidor estrangeiro — isto é, transformados em participação acionária em cruzeiros na empresa receptora.
Em outras palavras, o investidor estrangeiro que quisesse instalar ou ampliar uma fábrica no Brasil podia trazer os equipamentos diretamente da matriz no exterior, sem usar o sistema de leilões e sem ter que pagar o ágio da categoria correspondente. O equipamento era contabilizado como aporte de capital na subsidiária brasileira, e o investidor recebia em troca ações da empresa brasileira.
Efeito 1 — Subsídio implícito ao capital estrangeiro. O equipamento que, pelo regime normal, exigiria divisas adquiridas em leilão (com ágio significativo na categoria III), passou a entrar sem custo cambial direto. Isso representou subsídio implícito ao IED — o investidor estrangeiro obteve vantagem comparativa sobre o capital nacional.
Efeito 2 — Atração maciça de IED. A vantagem foi suficientemente atrativa para gerar grande aumento da entrada de investimento direto. Durante o Plano de Metas (1956-1960):
A Instrução 113 tornou-se o instrumento preferido das multinacionais para instalar suas operações brasileiras — automobilística, química, eletrodoméstica, equipamentos.
Efeito 3 — Alívio ao balanço de pagamentos no curto prazo. Como os equipamentos vinham sem necessidade de divisas, a pressão imediata sobre o BP foi reduzida.
Efeito 4 — Discriminação contra o capital nacional. O capital nacional não tinha acesso a financiamento externo equivalente: não podia importar equipamento sem cobertura cambial, dependia dos leilões. Isso gerou crítica permanente dos industriais nacionais e dos setores nacionalistas, que viam a Instrução 113 como instrumento de transnacionalização do parque industrial brasileiro.
Efeito 5 — Compromissos futuros de remessas. As remessas de lucros, dividendos e amortizações do IED gerado pela Instrução 113 criaram pressão estrutural sobre o BP no médio prazo. O alívio imediato foi pago com obrigações cambiais futuras crescentes — problema que dominaria o BP brasileiro durante toda a década de 1960 e 1970.
O programa de estabilização propriamente dito (eixos 1 e 2) foi um dos mais ortodoxos da história econômica brasileira contemporânea (Giambiagi, p. 19). Os efeitos:
O programa de Gudin fracassou politicamente antes de poder produzir resultados duradouros. Em abril de 1955 Gudin foi substituído por José Maria Whitaker no Ministério da Fazenda, sob pressão dos cafeicultores que protestavam contra o "confisco cambial" mantido pela diferença entre bonificações e ágios efetivos. Whitaker tentou redirecionar a política para acomodar o setor cafeeiro, com afrouxamento monetário gradual.
Quem assumiu de fato o governo na fase final foi Nereu Ramos (presidente do Senado), que ocupou interinamente a Presidência após Café Filho ser afastado por problemas de saúde em novembro de 1955. Nereu Ramos garantiu a posse de Kubitschek em janeiro de 1956 contra tentativas golpistas dos militares (Movimento do 11 de Novembro de Henrique Lott).
A herança permanente. Embora o programa de estabilização ortodoxa de Gudin tenha fracassado, a Instrução 113 sobreviveu e foi peça central do financiamento do Plano de Metas. Sem ela, a maioria das fábricas instaladas durante o JK (Ford, Volkswagen, Mercedes-Benz, Renault, fábricas de eletrodomésticos, indústria química) teria sido inviável dadas as restrições cambiais brasileiras.
A Instrução 113 representa, portanto, a institucionalização da entrada do capital estrangeiro no centro do projeto industrial brasileiro — o "tripé" do desenvolvimentismo brasileiro (Estado + capital nacional + capital estrangeiro) deve a essa Instrução parte significativa de sua viabilidade prática.
O Plano de Metas é a peça central do governo Juscelino Kubitschek (1956-1960) e representa a primeira tentativa brasileira de planejamento econômico abrangente e setorialmente coordenado. Sua compreensão exige situá-lo no contexto intelectual e político do meio dos anos 1950.
Três correntes confluíram no Plano de Metas:
Corrente 1 — Estruturalismo cepalino. A CEPAL (Comissão Econômica para América Latina, criada em 1948 sob a ONU), liderada por Raúl Prebisch, havia formulado durante toda a primeira metade dos anos 1950 a tese de que países periféricos só conseguiriam superar a estrutura primário-exportadora via industrialização planejada e dirigida pelo Estado. Os argumentos clássicos da CEPAL — deterioração dos termos de troca, dependência tecnológica, gargalos setoriais, necessidade de planejamento — foram a base teórica do Plano de Metas. Celso Furtado, então diretor da CEPAL no Brasil, foi um dos principais intelectuais a transitar essas ideias.
Corrente 2 — Pensamento desenvolvimentista nacional. Roberto Campos, Lucas Lopes, Hélio Beltrão, Glycon de Paiva e outros economistas brasileiros, atuantes no BNDE e nas comissões técnicas governamentais desde Vargas II, haviam desenvolvido pensamento próprio sobre como conduzir a industrialização brasileira. O Grupo Misto BNDE-CEPAL (criado em 1953) produziu estudos diagnósticos importantes que serviriam de base ao Plano.
Corrente 3 — Diagnóstico da CMBEU. Como visto na questão 7, a Comissão Mista Brasil-EUA havia identificado os pontos de estrangulamento da economia brasileira (energia, transporte, indústria de base) e elaborado 41 projetos concretos. O Plano de Metas é, em larga medida, a execução desses projetos sob coordenação central nova.
JK chegou ao poder com lema explícito: "50 anos em 5". Era promessa de aceleração radical do crescimento brasileiro, com base na industrialização. A eleição de 1955 foi turbulenta — JK venceu com 36% dos votos, contra Juarez Távora (UDN), Adhemar de Barros (PSP) e Plínio Salgado (PRP). Houve tentativas golpistas para impedir sua posse, neutralizadas pela ação do general Henrique Teixeira Lott em novembro de 1955 (o "Movimento do 11 de Novembro" ou "Contragolpe Lott").
O cenário externo era favorável: a economia mundial estava em expansão, o capital internacional procurava destinos para investimento direto, e a Guerra Fria fazia com que os EUA não pudessem se dar ao luxo de hostilizar publicamente o desenvolvimentismo brasileiro (embora a administração Eisenhower já não fosse generosa em financiamento oficial).
O Plano foi formulado pelo Conselho de Desenvolvimento, criado pelo Decreto nº 38.744 de 1º de fevereiro de 1956 — uma semana após a posse de JK. O Conselho era órgão colegiado presidido pelo Presidente da República, com participação dos principais ministros (Fazenda, Viação, Agricultura), do presidente do BNDE e de assessores técnicos. Sua secretaria executiva foi entregue a Lucas Lopes (presidente do BNDE), e Roberto Campos atuou como principal articulador técnico.
O Plano organizava-se em 30 metas quantitativas distribuídas em cinco setores estratégicos, mais a meta-síntese "Brasília" (construção da nova capital), tratada como projeto separado e parcialmente fora do orçamento oficial.
A distribuição setorial do investimento previsto era explicitamente concentrada em infraestrutura e indústria pesada:
| Setor | % dos recursos |
|---|---|
| Energia (elétrica, petróleo, carvão) | 43,4% |
| Transporte (rodovias, ferrovias, portos, ar) | 29,6% |
| Indústrias de base (siderurgia, mecânica pesada, química, papel, autos) | 20,4% |
| Educação (formação técnica) | 3,4% |
| Alimentação | 3,2% |
| Infraestrutura total (energia + transporte) | >70% |
Para coordenar os setores estratégicos da indústria, foram criados Grupos Executivos — instâncias inter-ministeriais com poder de decidir prazos, índices de nacionalização progressiva, subsídios cambiais via Instrução 113 e licenças de importação. Os principais:
O Geia, em particular, exigia que cada montadora estrangeira instalada no Brasil aumentasse o conteúdo nacional progressivamente — chegando a 90-95% do peso do veículo em poucos anos. Essa exigência forçou a instalação no Brasil da indústria de autopeças, que se tornou setor de bens intermediários relevante.
O investimento previsto era de Cr$ 236,7 bilhões (cerca de US$ 2,3 bilhões), ao longo do quinquênio 1957-1961. Em relação ao PIB, representava aproximadamente 5% ao ano — investimento elevado para os padrões brasileiros da época.
O Plano de Metas mobilizou um arranjo de financiamento que ficou conhecido como "tripé" — referência aos três tipos de capital combinados: Estado, capital privado nacional e capital estrangeiro. Cada perna tinha papel específico.
O Estado entrava de duas formas: investimento direto via empresas estatais existentes ou criadas (Petrobras, CSN, Vale do Rio Doce, FNM, planejamento de Eletrobras) — o setor estatal foi responsável por boa parte dos investimentos em energia e infraestrutura. E financiamento via BNDE, Banco do Brasil e outras instituições públicas. O BNDE foi o coração financeiro do Plano — concedeu créditos de longo prazo a juros favorecidos para projetos industriais privados, fez aportes em empresas estatais e operou em parceria com o Eximbank.
O capital nacional foi mobilizado para os setores onde já tinha presença estabelecida — cimento, química leve, alimentos processados, têxteis, construção. Famílias industriais tradicionais (Matarazzo, Crespi, Klabin, Jafet) expandiram suas operações sob proteção do regime cambial.
O capital estrangeiro foi atraído principalmente para os setores novos: indústria automobilística (Ford, General Motors, Volkswagen, Mercedes-Benz, Renault, Willys-Overland — sob exigência de nacionalização progressiva via GEIA); química (Dow, Bayer, BASF); eletrodomésticos (GE, Westinghouse, Whirlpool); equipamentos industriais (Caterpillar, Brown Boveri). O instrumento principal de atração foi a Instrução 113, que permitia importar equipamentos sem cobertura cambial como contrapartida de capital próprio.
As fontes de financiamento podem ser organizadas em seis pernas principais:
Perna 1 — Orçamento federal: tributos ordinários, sobretudo IR e impostos sobre consumo. Insuficiente para o tamanho do investimento.
Perna 2 — Fundos especiais: contribuições compulsórias destinadas a setores específicos — Fundo Rodoviário Nacional, fundos elétricos, fundo portuário.
Perna 3 — BNDE: contrapartida em moeda nacional dos empréstimos externos; aportes de capital em estatais; crédito de longo prazo a projetos industriais privados.
Perna 4 — IED via Instrução 113: como visto, mais de 50% do IED e mais de 60% dos empréstimos externos do quinquênio passaram por essa via.
Perna 5 — Empréstimos externos comerciais: Eximbank, BIRD (em escala reduzida pós-CMBEU), bancos privados americanos e europeus.
Perna 6 — Financiamento inflacionário via emissão monetária do BB. Esta foi a perna mais controversa e a chave para entender as consequências negativas do Plano.
Mecanismo do financiamento inflacionário: O Banco do Brasil expandiu o crédito industrial e comercial muito acima do que sua base de depósitos permitiria. A diferença era coberta por redescontos no Tesouro — na prática, emissão monetária. A Lei de Usura (Decreto 22.626 de 1933), que limitava juros a 12% ao ano, combinada com a inflação crescente (que partiu de 7% em 1957 para 39% em 1959), tornava os juros reais profundamente negativos. Isso significava que o tomador de crédito do BB recebia, na prática, transferência de riqueza. A demanda por crédito explodiu, e o BB cobriu essa demanda emitindo moeda — o que alimentou ainda mais a inflação.
Os resultados do Plano de Metas em termos de cumprimento das metas físicas estabelecidas mostram um quadro misto:
| Setor / Meta | % da meta atingido |
|---|---|
| Rodovias | 138% (única superada!) |
| Energia elétrica | 82% |
| Automóveis | 78% |
| Petróleo | 76% |
| Aço | 60% |
| Ferrovias | 32% (a pior) |
O Plano de Metas produziu um quinquênio de crescimento excepcional: o PIB cresceu, em média, 8,1% ao ano entre 1957 e 1961. Foi taxa muito superior à média histórica brasileira e equivalente às taxas "milagrosas" que o Brasil só voltaria a ter no "Milagre" de 1968-1973.
Mais importante que a taxa agregada foi a mudança estrutural que o Plano promoveu na economia brasileira. A composição do PIB se transformou substancialmente:
Mais granular: dentro da indústria, os bens duráveis dobraram sua participação (6% → 12%) e os bens de capital também (6,1% → 12,3%). É mudança qualitativa da estrutura industrial — não apenas "mais indústria", mas indústria de tipo mais sofisticado, com maior densidade tecnológica.
O coeficiente de importações caiu de 14% para 8% do PIB — sinal de que a substituição de importações havia atingido nova etapa, agora cobrindo bens intermediários e duráveis.
| Setor industrial | Início | Fim |
|---|---|---|
| Bens duráveis | 6% | 12% (2×) |
| Bens de capital | 6,1% | 12,3% (2×) |
Indústria automobilística instalada. A criação do parque automotivo brasileiro é talvez o legado mais visível do Plano. Em 1955, o Brasil não tinha indústria automobilística — apenas montagem incipiente. Em 1960, mais de 130 mil veículos foram produzidos internamente, com nacionalização média de 90% do peso. As principais montadoras se estabeleceram: Volkswagen (Fusca produzido a partir de 1959), Mercedes-Benz, Ford, GM, Willys-Overland, Renault, Simca. Em torno delas, instalou-se um setor de autopeças com centenas de empresas — base de uma indústria que se tornaria uma das maiores do mundo nas décadas seguintes.
Brasília inaugurada. Em 21 de abril de 1960, a nova capital foi formalmente inaugurada. Independente da avaliação política e estética do projeto, foi obra de engenharia gigantesca, construída em pouco mais de quatro anos, no meio do cerrado, integrando o Centro-Oeste brasileiro à economia nacional. A construção mobilizou ~60 mil trabalhadores ("candangos"), gerou demanda enorme por cimento, aço, mão-de-obra e serviços, e funcionou como projeto-síntese da capacidade de mobilização do Estado brasileiro.
Consolidação do BNDE como banco de desenvolvimento. O BNDE, criado em 1952, ganhou musculatura institucional, técnica e financeira durante o Plano de Metas. Tornou-se a principal instituição brasileira de financiamento de longo prazo, base de toda a política industrial brasileira subsequente.
Expansão da capacidade energética. A geração de eletricidade dobrou em cinco anos. Foram construídas grandes hidrelétricas (Três Marias, Furnas iniciada). A integração elétrica regional avançou. A capacidade de petróleo da Petrobras ampliou-se substancialmente (descobertas no Recôncavo Baiano).
Expansão da malha rodoviária. A meta de rodovias foi a única superada (138%). Foram construídas as grandes rodovias federais (Belém-Brasília, Brasília-Acre, expansão da Régis Bittencourt e da Anchieta-Imigrantes). Essa expansão integrou regiões antes isoladas e consolidou o transporte rodoviário como principal modal brasileiro.
A consequência mais visível e duradoura foi a aceleração inflacionária. A inflação brasileira, que era de cerca de 12% em 1956, saltou para:
É aceleração brutal — quintuplicação em três anos. As causas eram múltiplas: (i) financiamento inflacionário do Plano via emissão monetária do BB; (ii) juros reais negativos via Lei de Usura, gerando crédito explosivo; (iii) pressão de demanda pelo boom de investimentos; (iv) gargalos setoriais (sobretudo agrícolas) elevando preços de alimentos; (v) desvalorização cambial parcial elevando preços de importados.
Essa aceleração inflacionária constituiu a herança macroeconômica mais grave do Plano. O Brasil entrou em ciclo de inflação alta e indexada que duraria, com variações, até o Plano Real de 1994 — três décadas e meia.
Deterioração das contas públicas. O déficit federal dobrou em termos reais durante o quinquênio. A relação dívida/PIB começou a subir. O financiamento via emissão monetária foi sintoma e causa da fragilidade fiscal.
Deterioração das contas externas. Apesar da bonança do início (boom cafeeiro residual), as contas externas pioraram durante o Plano:
Dívida externa crescente: a dívida externa líquida aumentou cerca de 50% durante o quinquênio. Chegou a US$ 3,4 bilhões em 1960 = 2,7 vezes o valor das exportações anuais. Serviço anual (juros + amortizações) tornou-se carga relevante sobre as divisas disponíveis.
Dependência estrutural do capital estrangeiro: mais de 60% dos US$ 1,7 bilhão em empréstimos e financiamentos brasileiros entraram via Instrução 113; mais de 50% do IED total veio pela mesma instrução. Consequência: futura geração de remessas (lucros, dividendos, royalties, amortizações) crescentes, criando pressão estrutural sobre o BP no médio prazo.
| Indicador | Variação |
|---|---|
| Déficit federal real | ×2 (dobra) |
| Exportações | −11% |
| Dívida externa | +50% (US$ 3,4 bi em 1960) |
| Dívida / exportações | 2,7× |
Concentração regional acentuada. Os investimentos do Plano concentraram-se no eixo Centro-Sul — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná. Brasília foi exceção parcial, induzindo migração para o Centro-Oeste, mas o Nordeste e o Norte permaneceram à margem do dinamismo industrial. As desigualdades regionais, já existentes, acentuaram-se. A criação da Sudene (1959) por Celso Furtado foi tentativa de compensar essa concentração, mas com recursos limitados frente à magnitude dos investimentos no Sudeste.
Subordinação do capital nacional ao estrangeiro. A Instrução 113 produziu discriminação implícita contra o capital nacional. Setores estratégicos novos (automobilística, química, eletrodomésticos) ficaram majoritariamente nas mãos do capital estrangeiro. O capital nacional manteve-se predominante em bens intermediários tradicionais (cimento, química leve, alimentos, têxteis), mas perdeu a oportunidade de liderar a fase pesada da industrialização. Essa subordinação foi crítica recorrente dos nacionalistas (Roberto de Oliveira Campos, Furtado, depois Maria da Conceição Tavares).
Distorções nos preços relativos e na alocação de recursos. A combinação de subsídios setoriais, Instrução 113, leilões cambiais e exigências de nacionalização gerou distorções sistemáticas nos preços relativos. Setores não-contemplados pelos Grupos Executivos enfrentavam dificuldade de acesso a divisas; setores contemplados recebiam tratamento favorecido. A eficiência alocativa foi sacrificada em nome do objetivo principal — instalação de indústrias estratégicas.
Diante da aceleração inflacionária e da deterioração externa, o governo JK tentou em 27 de outubro de 1958 lançar o Plano de Estabilização Monetária (PEM), formulado por Lucas Lopes (que havia saído do BNDE para a Fazenda) e Roberto Campos.
O PEM previa:
A negociação com o FMI exigia compromissos formais de austeridade que pareciam incompatíveis com a manutenção do Plano de Metas. Em junho de 1959, JK rompeu unilateralmente as negociações com o FMI, em discurso que ficou famoso na historiografia: a frase emblemática foi que, entre crescer e estabilizar, o Brasil escolheria crescer. O PEM foi efetivamente abandonado.
A ruptura com o FMI teve repercussão política interna favorável a JK (consolidou sua imagem nacionalista) mas custo econômico real: o Brasil ficou isolado dos mecanismos formais de financiamento multilateral por anos, dependendo de bancos comerciais e do Eximbank em condições piores.
O custo da escolha "crescer sobre estabilizar" foi assumido pelos governos seguintes:
Jânio Quadros (1961, sete meses): tentou política ortodoxa (Reforma de 1961, com pacote ortodoxo), enfrentou resistência e renunciou em agosto/1961.
João Goulart (1961-1964): enfrentou inflação em aceleração (que chegou a 80% em 1963), deterioração das contas externas, e crise política terminal. O Plano Trienal de Celso Furtado (1963) tentou estabilizar mas fracassou. O golpe militar de abril/1964 encerrou o ciclo democrático.
Castello Branco (1964-1967): implementou pacote ortodoxo via PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo, 1964-1966), com cortes brutais de gastos, política salarial restritiva (que comprimiu salários reais) e renegociação internacional da dívida. Foi o ajuste que JK adiou em 1959, agora feito em condições autoritárias.
O Plano de Metas representa um caso clássico de trade-off entre crescimento e estabilidade em país periférico, com restrição externa estrutural e instituições fiscais inadequadas. A escolha de crescer aceleradamente produziu:
Ganhos estruturais permanentes: indústria pesada instalada, BNDE consolidado, Brasília construída, infraestrutura ampliada, mudança qualitativa da economia.
Custos macroeconômicos crescentes: inflação crônica, déficit fiscal, dívida externa, dependência tecnológica e financeira, fragilização das contas públicas.
Tese 1 (Furtado e maioria dos historiadores). O Plano valeu a pena estruturalmente, ainda que os custos imediatos tenham sido elevados. Sem o Plano, o Brasil teria entrado nos anos 1960 sem a base industrial pesada que permitiria, vinte anos depois, a fase final da industrialização sob o II PND (1974-1979).
Tese 2 (Roberto Campos e a escola monetarista). O ajuste poderia ter sido melhor combinado com o crescimento, evitando a aceleração inflacionária crônica. JK não enfrentou as questões tributária, agrária e financeira, e essa omissão custou caro nos vinte anos seguintes.
Estratégia do Plano de Metas: industrialização acelerada via tripé Estado + capital nacional + capital estrangeiro, financiada por orçamento + BNDE + IED via Instrução 113 + suppliers' credits + financiamento inflacionário.
Resultados positivos: PIB 8,1% a.a. + mudança estrutural (agropecuária cai 23,5% → 17,8%; indústria sobe 25,6% → 32,2%) + bens duráveis e de capital duplicam participação + coeficiente de importações cai de 14% para 8% + indústria automobilística + Brasília + consolidação BNDE.
Resultados negativos: inflação 7,0% → 39,4% + déficit fiscal dobra em termos reais + exportações caem 11% + dívida externa sobe 50% para US$ 3,4 bi = 2,7× exportações + dependência IED/Instrução 113 + concentração regional + ruptura com FMI em 1959.
Herança para o Brasil: indústria pesada estruturalmente instalada, mas com macroeconomia em desequilíbrio crônico que dominaria a agenda do país até o Plano Real (1994).
Uma folha por questão. Cada uma traz o esqueleto numerado da resposta (5 a 12 pontos), as datas-chave, os números-chave, os conceitos-chave e — quando houver — a armadilha do enunciado. Pense nisso como a folha que a senhora vai ler nas duas horas que antecedem a prova, depois de já ter passado pelo material completo.
| Autor / Obra | Uso central |
|---|---|
| BAER, Werner. A Economia Brasileira. 2ª ed. revista e atualizada. São Paulo: Nobel. Capítulos 2, 3 e 4, pp. 38-90. | Tabelas 3.1 a 3.9 (formação de capital, produção industrial setorial, comércio exterior por categoria); Tabelas 4.1 a 4.7 (governo Dutra ao II PND). |
| GIAMBIAGI, F.; VILLELA, A.; CASTRO, L. B.; HERMANN, J. (orgs.). Economia Brasileira Contemporânea (1945-2010). 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier. Capítulos 1 e 2, pp. 1-42. | Governo Dutra, 2º governo Vargas, interregno Café Filho, Plano de Metas. |
| FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Edição comemorativa 50 anos. São Paulo: Companhia das Letras. | Conceitos de "deslocamento do centro dinâmico" e "socialização das perdas". |
| TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar. | Referência conceitual sobre etapas da substituição de importações. |